Ópera do Marinheiro
- Eduardo Henrique

- 6 de dez. de 2023
- 4 min de leitura
Elas iriam acordar. Deveriam acordar. Irão acordar. Seja pelas cordas, metais ou pelas minhas mãos. Todos tipos de gentes, sentadas, aplaudindo cínica e desordenadamente enquanto me posicionava no púlpito vazio que me aguardava. Ele me esperava e eu, de fato, esperava também um dia verdadeiramente preenche-lo. De dentro do terno surrado que me deram os figurinistas, tirei a batuta. Dei as costas para o público. Ergui meus braços e apontei à percussão. Me indicaram com a cabeça estarem prontos. Passei os olhos pelos outros membros da orquestra. Todas aquelas testas brilhantes suavam naquela sala horrivelmente quente. Em uma delas, de relance, vi meu reflexo. Estava completamente acabado e nem havíamos começado. Desci os braços fazendo o estrondo tomar conta do ambiente.
O primeiro movimento havia tirado a bunda daquela gente de seus assentos. Olhavam, atentos, sem entender o que estava acontecendo. Cochichavam, atrapalhando a acústica da sala. Um bebê começou a chorar e logo foi retirado, junto de sua mãe, por um dos funcionários da instituição. Aquilo me tirou do sério. Apontando o indicador e o mindinho direito para a seção de cordas, fiz os violoncelos atacarem. Pesados, grossos. Era como um tsunami de lama subisse, vibrante, do chão até o teto do edifício. Bocas se abriram - e assim ficariam até o final. Meus braços - todos os oitenta e sete pares além do meu - não tentavam demonstrar resiliência. Alguns choravam como o bebê - só que em silêncio e sem abandonar seu ofício. Sabiam que mal tínhamos começado.
Chegou a vez dos metais. De trás das cordas, os que tinham mobilidade saíram três passos à frente. Deram início ao apocalipse. Suas trombetas ecoavam, guturais e harmoniosas, vacilantes e resistentes. Subiam e desciam em ondas, chamando deus e os anjos para presenciar o milagre que eu havia composto em sonho. Virei-me novamente para a plateia, mais especificamente para os camarins superiores. Minhas damas de vermelho eram as únicas que continuavam sentadas em meio à multidão de pessoas assustadas. Com suas mãos na garganta, massageavam as traqueias. Levantei, em "v", os braços em sua direção. Desci-os, abruptamente.
Estava quase completa minha sinfonia. As sopranos gritavam, agudas, capazes de trincar janelas - se naquela caixa escura tivesse alguma. A plebe à sua volta levava suas mãos aos ouvidos, tentando proteger os tímpanos. Com um movimento rápido, para cima, as fiz aumentarem o volume da nota. Quando a primeira dama desmaiou, apontei para as contralto. Graves, tomaram conta do ambiente, mesclando-se com os violões. Ocupado. Era como se todo o ar daquele lugar, até dentro dos nossos pulmões, estivesse ocupado com música. Com arte. Comigo.
Durante mais vinte minutos e dois movimentos deixei-os esforçarem-se. Faltava pouco. Só mais um instrumento à juntar-se à nós. O olhar plácido de Piotr Ilyich Tchaikovski pairava sobre minha cabeça enquanto sua barba enxugava minha testa. Seus canhões e o rifle que usou no Quebra Nozes apontavam sua mira para o meu peito enquanto, de trás das cortinas, uma mulher me entregava a almofada vermelha. Deixei a batuta cair. Ajoelhei-me e recebi, de braços abertos, o presente. Não podia, agora, ver a reação do público pois estava de costas para eles. Pela primeira vez, os ignorava como fizeram comigo a vida inteira. Antes não tivessem vindo vez alguma do que ter vindo por todas as vezes nesses últimos trinta e três anos para fingir interesse. Para fingir que entendem de arte. Para fingir que entendem de música, para fingir que entendem de qualquer coisa.
Deposito a almofada no chão e pego o revólver com a mão direita. Com a esquerda, recupero minha batuta. Todo marinheiro sabe que não se deve respeito ao mar. Não se deve reverência. Não se deve nada além de medo e coragem. Entre essas duas coisas, escolhe-se tal qual o nome de nosso primeiro barco. Subimos a bordo de uma vida de medo ou de coragem – mas subimos. Sempre. Seguro minha coragem com a mão direita, agora. Com ela, aponto e acalmo meus homens antes do motim se instaurar. O cabo de guerra entre a indiferença da plateia, disfarçada de hipócrita surpresa, e o esforço vão de meus tripulantes intensificava-se. Com movimentos fluidos, os direcionei à calma. Responderam, aos poucos. Foram diminuindo seus volumes e intensidade até encontrarem a harmonia perfeita. Tocavam como borboletas. Flutuavam notas, lindas, perfeitamente esculpidas, por entre aquela gente estúpida que só lhes queriam amassar com a sola de seus sapatos. Não saberiam reconhecer o belo nem se o mesmo lhes roubasse a alma.
A raiva toma conta de mim. Decido por voltar. Olho no olho de cada um dos homens e mulheres que dedicaram suas vidas a reproduzir essas ideias tão abstratas de minha cabeça. Minhas músicas. Minha alma. Olho para aquele olho único, calcinante, da plateia. Mais uma vez, me vejo. Conduzo a orquestra o mais alto que consigo em direção ao violento embate final. Aponto a arma em direção aos metais. Respondem. Aponto às cordas. Respondem. Aponto às vozes - gritam. Aponto em minha cabeça. Concluo.




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