top of page

Da Onda Que Fugiu do Mar

  • Foto do escritor: Eduardo Henrique
    Eduardo Henrique
  • 19 de abr. de 2023
  • 2 min de leitura

Atualizado: 22 de fev. de 2024

No mesmo dia que sonhei contigo, lembrei do velho acordeão de meu avô. Suas tristes melodias e as bucólicas paisagens que se sentavam junto ao sol para vê-lo tocar. No mesmo dia que sonhei contigo, acordei com os olhos doendo, marejados, inchados, cansados de apertarem-se contra o travesseiro durante meus sonos intranquilos. Na mesma noite que sonhei contigo, senti-me abstrato com as músicas do MF DOOM (que descanse em paz). Acordei com o coração no lugar da bunda e a bunda no lugar da boca. Acordei vivendo do nosso tempo emprestado enquanto o relógio se apressava para o alarme. Estou sendo sincero, venho me cansando de tanto sonhar contigo.

                Me cansam as cachoeiras, as trilhas, as lagoas, os pássaros e, acima de tudo, me destrói teu sorriso. Não suporto tua imagem tatuada na membrana vermelha de minhas pálpebras negras. Não aguento mais fechar os olhos e te ter como anfitriã de minha própria mente, alma e coração. Agradeço a companhia, mas procure teu próprio espaço – fora de mim. Nesta última vez, particularmente, quando me abraçou, me assustei. Teus finos braços pareciam pesar uma estrela inteira. Quando acordei, ainda sentia eles como uma tatuagem nas minhas costas – marcado à ferro quente, como num boi de corte.

                Não sei por que me persegues. Não entendo, mesmo. Não fois tu que resolvestes partir? Não foste tu que negou um amor entregue pelas mãos da própria Afrodite? Então por que não busca e faz sua morada em outro alguém? Nunca te segurei aqui comigo ou, muito menos, dentro de meu peito. A porta do pardieiro sempre esteve aberta. Não vou te expulsar, claro, mas, também, não lhe alimentarei mais. Busque teu sustento e deixe-me viver um pouco. Ao menos tentar.

                Quero ter certeza que o céu continuará azul sem ti. Quero sentar, assistir e respirar tranqulo - uma única vez. Quero testar a paciência das marés quando elas perceberem a falta dos teus pés nas areias do crepúsculo. Quero chegar em casa e não te ver esfregando nossas roupas no tanque de lavar, não mais sentir o cheiro da tua comida ou do perfume doce que impregna minhas memórias. Quero esquecer de você até não sobrar mais nada de mim.

Por quantas vezes me senti vazio? Por quantas mais vezes me sentirei infinito? Até quando me sentirei como o mar gelado que outrora nos banhou – como eu, tão desconvidativo? Não existem mais pessoas como nós. Não existem mais sentimentos como os nossos. Gente que brinca, gente que pula na água escura e gelada e dela tira pequenas conchas e saem, felizes e abençoadas, em direção ao coração um do outro. Gente que não se importa de se sujar de areia, de amor e de cigarro. Que não liga de beber o suor um do outro se isso significar qualquer tipo de intimidade. Gente viva, que vive e que viverá até não haver mais vida pra viver. Contigo, eu vivi. Me diga: como consegue não se sentir como uma onda que fugiu do mar?

Comentários


Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista

©2023 por Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista.

  • Instagram
  • LinkedIn
bottom of page