Quão Distante É O Agora?
- Eduardo Henrique

- 18 de ago. de 2023
- 3 min de leitura
Atualizado: 30 de jan. de 2024
Como queria voltar ser criança. Cansar de correr, de brincar. De viver. Atrapalhar a bebedeira dos adultos no churrasco enquanto passo por debaixo das mesas. Eu, meus primos, com o mundo inteiro nos esperando de braços abertos. Antes de tudo. Queria poder voltar e aproveitar a delícia e o sentimento de deitar na cama de um parente estranho. Ficar ali, naquele quarto escuro, dividindo o espaço com mais três ou quatro bebês espalhados, enrolados em cobertas. Tentar fugir do sono enquanto as risadas dos adultos penetram pelas frestas da porta fechada. Como eu queria reencontrar esse sentimento. A genuína ingenuidade pueril. Como queria acreditar que a vida estivesse só me esperando de mãos vazias. Que, na mão que guarda às costas, não tivesse escondendo o brilho de uma lâmina afiada.
Daria minha alma para que meus primos tivessem seguido seus sonhos de criança. Teríamos um astronauta na família. Dois ou três artistas, uma bailarina e um marceneiro. Daria tudo para que não tivessem, como eu, descoberto quão distante é o agora. Este deserto gélido que, tão cedo, chegou pra todos nós. Os astronautas resolveram por subir ao espaço, sim, mas não com suas gigantescas naves brancas. Deixaram-nas de lado pelo pela poeira que chove do céu e, como enxurrada, chega levando tudo que vê e inundando suas narinas. Os artistas, também e por sua vez, na beirada de uma estrada de terra que corta o canavial limítrofe à cidade, enterraram suas sensibilidades. Trocaram-na por números e mais números que ocupam todo e qualquer espaço de seu cérebro. Criaturas puramente lógicas, agora. Em prol de que? Do acumulo de capital de outrem. Trocaram tudo aquilo que lhes fazia humano por um ingresso na classe econômica da sociedade.
Ah, e a bailarina, claro. Não fugiu à regra. Trocou seu tutu por uma peruca feita diretamente com os cabelos negros de sua mãe. Esqueceu como girar e saltar. Abdicou dos movimentos tão delicados em prol do balanço dos braços que vão em direção às nádegas de seus filhos. Certa vez, fiquei sabendo, resolveu por cozinhar um almoço dominical especial para sua família. O fez, por capricho, usando seu último par de sapatilhas. Não tardou para que uma das crianças da nova geração, brincando – tal como fazíamos juntos uma vida atrás, trombasse com o fogão. Bastou uma panela de óleo quente sobre seus pés para que o sonho dela morresse de vez. Nunca mais dançaria e, com certeza, faria questão de que a criança também nunca mais, feliz e abençoada, corresse.
O marceneiro foi o que mais perto chegou de realizar-se. Aprendeu, no depósito de gente, a confeccionar bolas de futebol e pequenos brinquedos de costura. Não lhe permitiam trabalhar com madeira pois, dizia, não mais lhe confiavam às ferramentas afiadas necessárias. Contou que, quando ali chegou, recebeu a visita de meu tio. Seu pai, claro. Após a conversa, dirigiu-se até seu posto do dia, locando-se na cozinha do presídio. Pegou a primeira coisa afiada que viu e cortou o pulso esquerdo. Disse o médico que, fosse o corte um centímetro mais fundo, não haveria o que fazer. Sinto pena. Antes tivesse morrido. Durante mais de um mês, quando se acabava a contagem noturna, os guardas entravam em sua cela e o enrolavam-no, como uma salsicha em um cachorro quente, por entre dois colchonetes azuis. Deixavam somente sua cabeça à mostra, impedindo completamente seus movimentos até a manhã seguinte.
De todos, sobrou quem? Os artistas? Não, nem os reconheço mais. Seja em uma multidão ou em uma sala vazia, se tornaram tão comuns como qualquer alma pode ser. O tipo de pessoas que conseguem se camuflar ficando de costas para uma parede. Tão indignos de nota que, ao mencioná-los, teria que inventar algo sobre. Mas não. Não vale a pena.
De todos, sobrou um: O poeta. O primeiro a descobrir quão distante é o agora. O que amou tanto e tão cedo que, quando chegou a hora e a idade de amar, já estava cansado de tanta decepção. O que, de tanto escrever, cansou-se das letras e elas, mesmo organizadas, deixaram de fazer sentido em sua cabeça. O homem que, ao passo que mais se vive, desfaz-se em sonhos onde busca o conforto ardente de um velório com caixão fechado. O que, todo santo dia, deita-se em sua cama vazia e busca, entre o ruído dos ratos, dos carros e dos vizinhos, as risadas e gritos de sua família vindo da sala ao lado.




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