top of page

Pra sempre (Jo)vem

  • Foto do escritor: Eduardo Henrique
    Eduardo Henrique
  • 18 de jul. de 2023
  • 2 min de leitura

"Posso duvidar que meu corpo existe. Não posso duvidar que minha mente existe. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas. Sendo assim, mente e corpo não são idênticos. Não cometa o erro de pensar que são." - O Autor (& Renè Descartes).

Os rostos que ouço e as vozes que vejo. Em sonho, diuturnamente, elas vêm e conversam comigo. Me culpam – sempre etéreas, eternas, jovens até o esquecimento daqueles poucos que guardam suas almas em memória. Eles se foram. Partiram e aqui envelheço enquanto eles continuam jovens, belos e cheios de vida do outro lado dessas cortinas vermelhas. Às vezes, pesa. Com este mesmo peso, flutuo rios e mares adentro, até me cansar e mergulhar nas profundezas do surreal. Espero, um dia, quando precisar de oxigênio, não mais encontrar a fina folha que separa a superfície d’agua do céu. Às vezes, pesa.

Ninguém nunca chegou gritando – muito pelo contrário. Em névoa, eles sussurram e dançam seu ritual em volta da penumbra do meu ser. Tento entender suas palavras, mas nunca consigo distinguir – não estudei o suficiente pra isso, acho. Suas histórias inacabadas atravessam a existência e ecoam nas paredes do meu tórax. Linhas e mais linhas se entrelaçam enquanto as fronteiras vão esvanecendo. Me torno, enfim, o receptáculo dessas lembranças alheias.

Eles sabem da minha maior dificuldade. Sabem que meu cérebro não aprendeu a guardar memórias boas. Por isso me condenaram a vagar no tempo e por isso, também, em seus círculos faço morada. Um dia, espero, encontrarei algo que faça meus dentes amarelos refletirem a luz do sol. Enquanto minh’alma aqui envelhece, os rostos continuam imutáveis em sua juventude perfeita e perpétua. Vorazes, eles se alimentam de minhas energias desperdiçadas, de falecidas esperanças esquecidas – os grandes vampiros da emoção humana.

Por vezes, as cortinas tornam-se opressivas demais. Uma muralha inquieta, incapaz de resistir a pressão dos ventos que nelas batem. Uma vez tentei, por conta própria, atravessá-las. Não adiantou – se enrolaram em meu rosto e me sufocaram. Anseio por uma liberdade que desconheço, por quebrar esses grilhões de ferro fado. Mas, neste limbo deprimente, como escapar quando o próprio tempo se converte em uma miragem etérea em formato de espelho?

As vozes persistem, buscam de todo modo me incomodar. Dão seu máximo, cantando uma sinfonia cacofônica com seus instrumentos feitos de pensamentos desconexos. Elas me apontam dedos, me jogam tomates verdes de um passado que não me pertence, mas me mancha e, eu, como espelho de suas memórias, faço nada mais que refletir seus erros e desejos inatingíveis. Mas, quem sou eu além dessa sobra, dessa sombra efêmera que dança entre a realidade e o sonho?

E assim, todo dia, entre o peso da minha existência fragmentada e a leveza da eternidade que uso como cobertor, me perco. Nesse turbilhão, me suspendo e me protejo nesse espeço interdimensional e coletivo, em minha ilha solitária, à deriva– como eu – no oceano do tempo. Receptor e receptáculo, silêncio e voz, boca e ouvido. Homem e ponte. O canal entre mundos divergentes que só eu conheço, o observador uno das maravilhas e horrores que se desdobram além das fronteiras da compreensão – e que chamamos de vida. Perspectiva. Único – como você.

Comentários


Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista

©2023 por Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista.

  • Instagram
  • LinkedIn
bottom of page