O Último Grande Problema da Filosofia
- Eduardo Henrique

- 19 de jul. de 2023
- 4 min de leitura
Pouco tempo atrás conheci uma das pessoas mais incríveis que poderia ter conhecido. O menino era uma dualidade ambulante. Era bonito na mesma proporção em que se achava razoável. Inteligente na mesma proporção que se achava burro. Fingia sorrisos e felicidade na mesma intensidade com o que chorava sozinho no seu quarto a noite. Guardava em sua memória toda uma gama de histórias que sua língua contava, contagiante, enquanto escondia tudo que dizia respeito a si mesmo. Foi incrível.
Observava-o, atento, enquanto os dias passavam. Bebia daquela oportunidade para tentar entender coisas inexplicáveis. A maior parte das pessoas, principalmente sua família, não o compreendia. Quando nasceu, foi logo considerado uma criança prodígio. O pularam algumas séries da escola pra frente – pois já chegou lá sabendo ler e escrever, diferente de seus pares. Agora, passa suas madrugadas em um apartamento de 20m² na maior capital do Brasil. Foi sua escolha.
Nos primeiros quinze dias do mês, se organizava e fazia sua própria comida, convertendo-a em uma pilha de louças que era lavada só quando garfos e talheres tinham, enfim, acabado e eram necessários novamente. Nos outros quinze, comia o que sobrava de seu dinheiro – quando sobrava algo. Repetia, semanalmente, suas roupas de acordo com a condição dos odores das mesmas. Não tinha muitos móveis, só uma cama, um sofá, a TV, o fogão encardido e a geladeira velha, cheia de adesivos e memórias. Vivendo o Crucíbulo da Necessidade.
Isso, claro, não por que era muito ocupado ou algo do tipo. Quer dizer, era, mas não no sentido usual da palavra. O que o impedia de realizar essas tarefas sisíficas e cotidianas era justamente o turbilhão de pensamentos que embaçava sua mente. Absolutamente tudo, pra ele, era difícil, soava difícil. Atos que, em geral, demorariam 10 ou 15 minutos para serem realizados pareciam uma Odisseia quando analisados. Ele sabia disso, mas não era como se pudesse controlar também. Ele vivia conforme conseguia viver – e já era muito.
Eu vi esse homem espiralar em uma condição mental tão extremamente grave e ruim que, de fato, não senti como se fosse possível ajuda-lo. Então me resignei ao papel de observador. Era como um filme, uma bomba relógio. Sentei-me e esperei o clímax chegar. Enquanto isso, fui tentando adivinhar o que poderia ter acontecido com a criança que um dia vivera ali dentro. Talvez ele tenha perdido o grande amor da sua vida. Talvez ele tenha sido abandonado por sua família, amigos, tanto faz. Mas não parecia ser nada disso. Aquele sofrimento parecia ter nascido com ele – se ele sumisse daquele homem, não tenho ideia do que, ou se algo, sobraria.
Mas tudo isso era só o nada. O vazio deixado pela falta de esperança, de vontade, de dinheiro, de carinho, de amor, de tudo. Pelos centros de São Paulo vagam 30 milhões de cascas, diariamente, e ele era mais uma delas. Tudo que eu achava tão único naquele homem não faltava em mim ou em qualquer outra pessoa, em retrocesso. Tirando uma única coisa – ter ao que se agarrar. Se um dia você viu uma sombra, passando pelo chão sujo e iluminado de avenidas, becos e vielas. Era ele.
Um dos temas mais incompreendidos – o grande último problema da filosofia –, pela sociedade, é o suicídio. Uma experiência tão dual quanto a existência daquele homem. Por um lado, parece uma experiência extremamente individual e, talvez, egoísta. Por outro, não há nada de individual nesta ação. Conforme a literatura, o suicídio é qualquer morte que seja o resultado imediato ou final de uma ação positiva (por exemplo, atirar em si mesmo) ou negativa (por exemplo, recusar-se a comer). Se você atirar em si mesmo, será necessário comprar uma arma, municia-la, e efetuar o disparo – logo, a ação final perde o seu suposto caráter individual desde seu cerne. Se você se recusar a comer ao ponto que, um dia, morra, alguém acabará por ventura, e indubitavelmente, encontrando seu corpo, chamando as autoridades responsáveis que tomarão as rédeas do que fazer com seus restos – também, retirando o caráter individual da ação.
Aquele homem não queria dar trabalho pra ninguém. Só queria deixar de existir – corpo, alma e memórias (suas e de quem por acaso viesse a lembrar de si). Como isso, aparentemente, não era possível, ele tentou viver. Procurou trabalhar seu corpo, sua mente e espirito. Passou a frequentar ambientes que antes desconhecia – academias, parques, museus e bibliotecas. Conheceu pessoas em bares, tentou entender suas vidas, mas achou tudo muito raso. Era como se estivesse se distraindo, esquecendo, por breves períodos de tempo, o vazio que devorava seu coração.
Nada disso adiantou. O que restou? Um dia, resolvi visita-lo após uma discussão com minha mulher. Ele sempre tinha algum conselho muito bom quando esse tipo de coisa acontecia. Toquei sua campainha e ninguém me recebeu. Pensei que tivesse saído ou algo do tipo. Me virei para ir embora e trombei, no elevador, com uma de suas vizinhas que descia, naquele momento, no andar. Cumprimentei-a e perguntei se havia visto o rapaz nos dias anteriores. Ela respondeu que não, que inclusive gostava e se preocupava com ele também. Ponderamos, juntos, o que poderia ter acontecido. Batemos à sua porta. Nada. Resolvemos, assim, puxar a maçaneta da porta. Ela se abriu. À nossa frente, impecável, se estendia sua cozinha branca e vazia. Adentramos, passamos pela sala e seu sofá, o banheiro e sua privada e nem sinal do homem. Pela janela, o pôr-do-sol rosa-alaranjado ia rastejando rumo às paredes.
Enfim, chegamos à porta fechada do seu quarto. Grudada com fita transparente, na altura de minha cabeça, havia uma folha dobrada cuja na face se lia “Fui viajar”. Peguei a carta e a li com a mulher. Não havia muito escrito, somente um parágrafo.
“Eu por muito tempo, tentei encontrar sentido nesta vida. Em todo lugar procurei e não consegui encontrar. Mas, ontem, conheci alguém que me amava. Ela disse que morava num lugar lindo e estava aqui só de passagem. Me contou sobre as praias infinitas de seu país, da areia branca como a neve, do um oceano verde que cuspia espuma em sua orla. Sem tristeza, nus, beberíamos água de coco e comeríamos bananas. Nos beijaríamos e construiríamos uma cabana... A última coisa que me lembro deste encontro é dela me chamando para ser príncipe desse lugar, conhecer seus pais, herdar o reino e com ela viver, com ela morrer.
E eu fui. Adeus.”
Abrimos a porta.
_- É... – Ela disse, de cabeça de baixa enquanto segurava a minha mão. – Eu entendo.




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