O Décimo Sexto Arcano Maior: A Torre
- Eduardo Henrique

- 27 de jun. de 2023
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“Quem é mais infeliz: os que sentem a solidão dentro de si, ou os que a sentem do lado de fora? Impossível responder. Ademais, para que me atormentar com uma hierarquia da solidão? Estar sozinho, do jeito que for, não é suficiente?” – Emil Cioran.
Lembro de ter lido, certa vez, “Sentir-se atirado e suspenso no mundo, incapaz de se adaptar a ele, consumido em si próprio, destruído por suas próprias debilidades ou exaltações, atormentado por suas próprias insuficiências – sem considerar os aspectos exteriores do mundo, que podem ser brilhantes ou sombrios – e permanecer no mesmo drama interior, eis o que significa a solidão individual”. Essa é a solidão em sua dimensão mais irremediável. É a condição humana que, desde sempre e para sempre, me atravessa.
A solidão individual não permite camaradagem ou companheirismo, amor ou amizade. Nem tristeza nem saudade. Longe de tudo, da vida e da cidade, perto dos descampados onde as flores de cálcio rasgam o chão e pintam de branco a paisagem, construí minha morada. Em sua laje, no topo, me coroei, projetando-me acima das trivialidades mundanas e das ilusões vazias que povoam o mundo. Durante anos trabalhei. Tijolo por tijolo, cada um nascido de uma desilusão diferente, os juntei com a argamassa do desespero e os fundei nas vigas da desesperança. Cada andar, decorei com os escombros dos meus sonhos e pintei quadros de minhas derrotas.
Ergui este lugar como proteção, meu refúgio contra a agonia da existência humana. Minha alma me questionou certa vez. Deitou-se comigo na cama, me olhou nos olhos e disse: “Não seria a solidão, por si só, o símbolo mais profundo, dessa condição tão dolorosa?”. Não soube o que lhe responder. Só sabia que era preferível perecer sozinho e abandonado, sem ilusões que fossem. Vim por acaso, trazido por outro tipo de solidão que não a minha individual: a solidão cósmica. Predominantemente subjetiva, ela operava em um outro nível completamente diferente – mas perceptível – ao meu redor. Era aquela sensação de indiferença total em relação a tudo o que me cercava. A realização sepulcral de que o mundo é frio, e que, quando finalmente te arrebata, deixa todo o resto da existência sem graça.
Ah, minha égide, meu lugar incomunicável, incomensurável. Aqui, nas profundezas destes corredores, me afogo na quietude fria, me refúgio em meu universo paralelo – desconectado do tempo e do espaço. Suspenso, o tempo em si abandona os ponteiros do relógio. Não tenho mais promessas de eternidade ou a possibilidade da extensão de qualquer instante que seja. Estou sozinho. A única outra presença – que não a minha, é, justamente, a da solidão. Minha única companheira, faminta, sempre me devorando de pouco em pouco. Às vezes, de mãos dada com ela, contemplando nossa obra, me sinto como uma estátua de mármore, nada mais que uma parte da decoração do lugar – até o vento gelado roçar minha pele e me lembrar de mim.
Não anseio partir, não procuro rota de fuga. Permaneço aqui com a escuridão da noite que me envolve e aquece. Aprecio as estrelas das lembranças, distantes, fotografias de um tempo em que eu ainda acreditava em algo. Lembro me, às vezes, do que me trouxe aqui. “No uno respiro, no uno repouso”. A morte mais profunda, que deixa uma cicatriz aberta no mundo quando acontece, é a morte solitária. Eu vim atrás dela. Eu nasci pra ela.
Enquanto isolados, separados, tudo nos é proibido que não seja nossa mente. Aqui, neste lugar, até a luz se torna um princípio de morte. Nestes momentos que estou separado da vida, longe do amor, questiono-me, então, se há algo além do vazio do mundo e do meu próprio vazio. Tento entender a piada que todos parecem estar rindo, mas não a compreendo... Tudo sempre foi trágico – porque eu não seria?
A vida flui de forma indiferente aqui enquanto minhas reflexões se perdem nos corredores sombrios da minha Torre. Literalmente se perdem. Tão logo cheguei, percebi que, cada vez que pensava, uma folha de papel aparecia logo em seguida em algum canto do prédio. Em algum momento, tentei organizar a bagunça que se acumulava, mas logo desisti – para que organizar qualquer coisa? Quem aqui viria? Não fiz porta que fosse que levasse ao mundo exterior. Ainda assim, pessoas faziam romarias até meu edifício. Nunca vi uma que estivesse perdida – todas quiseram chegar ali. Do topo, as estações mudavam e as pessoas se cansavam de esperar. Isso quando eu mesmo não as expulsava. Não faço mais que o vento que sopra ferozmente lá fora, levando consigo as ilusões e descortinando as contradições da existência.
A torre era linda. Só a vi, por fora, uma única vez depois que me fechei aqui. Mas era linda, fiz questão que fosse. Depois dos tijolos, fiz questão de assentar todo o exterior com mármore branco. No fundo eu entendia os aventureiros que caminhavam semanas para chegar até aqui. A solidão é sensual. Vale a pena ser contemplada nem que seja uma única vez. E era exatamente isso que eles faziam: chegavam, acampavam por dentre as flores que rodeavam meu prédio e, de saco cheio, algum tempo depois iam embora - invariavelmente. Quer dizer, ouve uma única exceção.
Foi uma mulher, lembro. A vi por uma das janelas tentando subir, apoiando-se nos vãos dos tijolos. Já havia subido quase um terço do caminho até o topo quando percebi o que estava acontecendo. Me lembro de correr até a janela da cozinha, no terceiro andar da torre, abrir, e gritar com ela. Pedi para que saísse dali, expliquei, aos berros, que aquele era o meu lugar e de ninguém mais. Falei que, caso escorregasse, a queda não seria gentil com ela. Tentei de tudo. Bom, até finalmente poder ver seu rosto quando invadiu justamente pela janela que abri.
Ela era linda. Tinha cabelos negros e sua pele era branca como o mármore que refletia o sol do lado de fora. Ela sorriu pra mim e, de repetente, a atmosfera parada do ambiente pareceu congelar mais ainda. Aquele momento durou minha vida inteira. Quando recobrei a consciência, sentamo-nos em uma mesa e, de pronto, a perguntei o que queria aqui e ela me respondeu. "A muito tempo escuto falar sobre o homem da torre. As pessoas vem até aqui, se assustam contigo e vão embora, vão para casa contando vantagem sobre como foram corajosos de terem vivido essa aventura." Consternado com o relato, fiquei sem reação. A mulher levantou, foi até um dos armários, pegou um bule, um pouco de ervas, e passou a ferver um pouco de água, como se minha casa agora fosse dela. Ela então fez um chá, serviu-se e colocou um pouco em uma caneca para mim, que bebi. Sentada à minha frente e me olhando no fundo dos olhos, retomou a conversa de onde parou. "E eu, me pergunta? Eu só quero ficar sozinha com você."




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