Nós Que Não Somos Como Os Outros
- Eduardo Henrique

- 23 de nov. de 2022
- 3 min de leitura
Atualizado: 12 de mai. de 2023
O que lerá abaixo é um excerto, na verdade três, de uma tentativa falha de entender o impossível. De explicar o inexplicável. Fiz de minha vida uma peça de teatro. Transformei dor e amor, presença e saudade em palavras. Dancei e tropecei numa dança coreografada pelo destino e tentei me erguer novamente, inúmeras vezes. Mas este texto, esta peça, é algo que não tenho como mais falar ou escrever sobre, restando apenas enterrar essas palavras aqui neste lugar. Junto das tantas outras que escrevi. Só mais uma balada de amor e ódio enterrada no cemitério do meu peito.
E pra ele, já disse Leonard Cohen: "E o que posso te dizer, meu irmão, meu assassino? O que poderia te dizer? Acho que sinto sua falta, acho que te perdoo. Estou feliz que você tenha entrado em meu caminho. Se um dia você vier aqui, por ela ou por mim, bem, seu inimigo está dormindo e a mulher dele está livre. Sim, e obrigado, pelo ar de pesar que você tirou do olhar dela. Eu pensei que ele esteve e estaria lá pra sempre, por isso nunca tentei."
(1) O amor é aquilo tudo que nós deixamos de fazer. É tudo aquilo que deixamos de dizer, de demonstrar - apesar de sentir. É o buraco vazio no fundo do coração que ocupa todo o espaço da memória. É a cabeça ecoando - sem cessar - todas as oportunidades perdidas de demonstrar o afeto a quem o deveria ter recebido. O amor é o que sobra. O que, aos poucos, vai se transformando em arrependimento. É se arrepender não do que fez, mas sim daquilo tudo que poderia ter feito e não fez. É uma pilha de poeira acumulada no canto do seu quarto. Ela está lá todo dia quando você vai dormir. Você a encara e ela te encara de volta - até ambos pegarem no sono. Você acorda e pensa que vai, finalmente, juntar forças e limpar ela, tirar ela dali - do seu caminho. Mas não hoje. Não hoje… você precisa dela… aquela sujeira acumulada é uma das poucas coisas que que você conhece. Você conhece a dor. Está acostumado com ela. E, se se livrar dela - do sentimento, da lembrança - o que sobrará no final? Você. Só você. Sozinho, deitado, numa cama grande demais. Num quarto grande demais. Num mundo grande demais… não tem nada mais assustador que isso.
(2) O amor é covarde. Ambos eram. Ele por não ter, na maior parte do tempo, a coragem de se expressar e ela por, quando ele conseguia finalmente fazê-lo, não aceitar o amor que lhe era cabido. Os dois se amavam. Os dois sabiam disso. Mas tinham medo desse amor, medo de amar. A companhia dela era tudo o que ele mais queria no mundo - conforme foi a conhecendo, durante os anos, percebia cada vez mais que ela era um milagre. Sabia que, após ela, não teria mais nada. Ninguém para conversar, ninguém para compartilhar a vida - pois já não haveria vida alguma no mundo. Sem ela, restaria o deserto - a vida real. Ele a queria e esse querer se transformou em amor. De outro lado, ela precisava dele. Não queria - mas precisava. Cada vez mais. Ele era a rocha - que balançava, mas se mantinha firme, no final - que a sustentava desde que terminara seu último relacionamento. Ela era para ele o que o ex amor dela era para ela. E ela tinha medo. Já faz um ano que ambos estudavam, trabalhavam e, no fim do dia, ficavam juntos até a madrugada enegrecer o céu. No começo por prazer, depois por necessidade. Enquanto ele a amava, ela tentava impor limites. Eles eram amigos - e só. Amigos que dormem e acordam juntos. Mas amigos. No fim das contas, covardes - tal qual o amor que sentiam.
(3) O amor é confuso. É desengonçado. Bagunçado. É um cabo-de-guerra onde quem ceder primeiro acaba se machucando mais. Mas todos se machucam, no final. A ideia de um amor perfeito, que nos é vendida desde crianças, é uma mentira. A maior parte das pessoas ama desde cedo - justo quando não tem maturidade para amar. O amor é um cavalo selvagem correndo nas planícies verdes dos nossos corações. Se você não aprender a controlá-lo, ele acaba dominando você. Te faz escravo. Escravo de um sentimento. E você aceita, pois ele é, como te mentiram, bonito. Ele edifica. Destrói as barras de ferro que te prendiam dentro da sua própria cabeça e te faz pensar e sentir além. Pensar e sentir pelo outro. Te liberta para um mundo maior, que estava escondido bem embaixo do seu nariz só para, no fim, te deixar sozinho. Tonto, confuso, esmagado pelos seus próprios sentimentos e abandonado, com uma vida inteira, vazia, esperando à sua frente.




Comentários