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Excertos I

  • Foto do escritor: Eduardo Henrique
    Eduardo Henrique
  • 19 de dez. de 2022
  • 2 min de leitura

Atualizado: 29 de dez. de 2022


Segunda feira. Acordei com a casa em um estado deplorável. Nenhum dos cômodos emitia qualquer sinal de conforto. Roupas e embalagens plásticas abarrotavam os ambientes. Levantei do colchão - em um ano morando lá não consegui juntar dinheiro e comprar uma cama - e sapateei, descalço, através da sujeira até o banheiro. As paredes brancas do lavabo estavam repletas de manchas verde-escuro, completamente emboloradas. Lavei o rosto e escovei os dentes rapidamente, não havia mais tempo para tomar banho. Saí rumo a sala e, sentado na soleira da porta que dava para o corredor do condomínio, acendi um cigarro - o último da carteira. Vivia assim - um cigarro após o outro. Na sexta-feira, após o expediente de trabalho, prometi para mim mesmo que iria dar um jeito naquela casa. Agora, dois dias depois, tudo estava igual - senão pior. Em algum momento abri mão do controle da minha vida e não consigo mais recuperá-lo. Não que eu ao menos tivesse tentado também. Viver é pesado, difícil, exaustivo. Viver tentando, então… não sei nem como seria. A verdade é que, de alguma forma, abrir mão do controle me trazia conforto. A bagunça, a sujeira, o hedonismo em que eu vivia me trazia conforto. Fora de casa, longe de mim, fingia ser uma outra pessoa. Era bonito, confiante, altivo talvez… mas não era eu. Aqui, na podridão e no pó, meu coração se aquecia pois podia descansar se abrisse mão das preocupações impostas pela sociedade. Sim, eu poderia ter limpado tudo na sexta-feira, transformado os cômodos em ambientes habitáveis, mas eu dormi. Dormi pois cheguei em casa naquele dia com dinheiro suficiente para um almoço e um maço de cigarro, sabendo que teria de sobreviver até a próxima segunda. Então dormi. Dormi o máximo que pude para que o tempo passasse rápido e eu esquecesse de minhas necessidades. Ignorei o cheiro da louça suja e o barulho do inseto que batia asas atrás do meu guarda roupa. Ignorei minha existência durante dois dias. Deixei de lado a minha alimentação e o meu vício e esvaziei minha cabeça. No tempo que não consegui dormir acabei por me distrair consumindo conteúdo pelo celular. Agora, acordado nesta segunda-feira, colocarei meu terno e seguirei rumo ao meu ofício. Me preocupar comigo, de novo, só na próxima sexta-feira - onde farei de tudo para me esquecer novamente. Vou ao trabalho pois lá eu não existo, confessarei pecados à pessoas que não me conhecem e andarei sem rumo pelas ruas pois nelas sou o que eu quiser ser.

No final, mesmo dormindo, só tenho dois tipos de sonhos: os ruins e os terríveis. Com os ruins consigo lidar: são só os pesadelos que logo acabam e então já acordo. Já os sonhos terríveis são os sonhos bons. Nos sonhos terríveis tudo vai bem. Tudo é maravilhoso. Tudo é normal. São sonhos onde me sinto feliz... Aí eu acordo e ainda sou eu. E continuo aqui. E essa é a parte terrível.

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Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista

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