Dos Coelhos que Caçam Tigres
- Eduardo Henrique

- 10 de jan. de 2024
- 3 min de leitura
Tradições. Todo ano, pouco antes da virada, me programo para fazer uma viagem. As vezes curta – coisa de alguns dias, outras longas – duas ou três semanas que, espero, tenham o potencial de mudar minha vida. Todo ano a mesma coisa, o mesmo ritual. Separo a mala. Bato o pó e a coloco em cima da cama. Grande, aberta e vazia. Deitada, me esperando percorrer os cômodos da casa. Me esperando coletar os itens essenciais que me acompanharão durante o trajeto deste novo ano.
Fazia algum tempo que havia mudado um pouco as coisas. Além de roupas, utensílios de higiene e diversão, passei a levar comigo um ou dois objetos aleatórios. Não havia motivo específico. Só, certa vez, enquanto cumpria a ritualística, reparei no pequeno cachorro de madeira sentado sob a antiga televisão de tubo que ficava no quarto de visitas. Me pareceu prudente leva-lo para um passeio. E assim foi. Fomos.
Se foram tantos anos, desde então. Tanta gente, desde então. Mas continuamos aqui. Eu e meu cachorro. Cada ano que passa conhecemos lugares novos, vivemos, em par, a tragicomédia da experiência humana (e vegetal). Ele me viu ser bom, me viu ser ruim, ser feliz e ser péssimo. Ainda, continuou sentado vigiando minha mala. Continuo em meu bolso, latindo para as prostitutas e vagabundos que conheci pelas noites.
Me lembro do dia que acordei e percebi que uma de suas patas dianteiras havia se quebrado. Ainda hoje me consome a sensação de desespero, desamparo, que sinto cada vez que penso em tudo que poderia ter feito para evitar o incidente. Cheguei a processar a companhia aérea, inclusive. Não adiantou. Acredito que não exista juiz nesse mundo que consiga indenizar, suficientemente, a dor do luto.
Devido ao apreço que sentia pelo cão, resolvi por deixa-lo de fora da viagem seguinte. Em troca, levei comigo uma luminária herdada de minha vó. Sendo a gás, não tinha utilidade prática. Tão somente me confortava não estar solitário. Ali, aprendi que, aos peitos atentos, as memórias são uma das melhores companhias. Claro, isso quando não escolhemos transformá-las nas piores.
Voltei para casa. Vazia, empoeirada. Teias e mais teias de aranha se acumulavam pelos cantos. Traças balançavam ao vento rumo ao topo da minha estante de livros. Ano seguinte, ato contínuo e ainda por medo, peguei um antigo exemplar da bíblia sagrada e o coloquei na mala. Acolchoei-o, tal como meu pai – seu antigo dono – fazia comigo antes de dormir. Viajamos.
Durante o trajeto, o cheiro ocre das folhas oxidadas me confortava mais que a palavra divina. Me traziam de volta à momentos da infância que, inevitavelmente, simulamos quando adultos. Inutilmente, também. O primeiro passo do “amadurecimento” é justamente cortar as próprias pernas fora. Não servem mais para jogar bola, pegue um par que lhe sirva melhor para caminhar. Corte seus braços – não tens mais mãe para abraçar e cozinhar junto. Pegue um par mais forte, que lhe proporcione carregar mais peso. Troque seu coração – o das crianças é mole demais, vai ser triturado pelo mundo se continuar aí.
Cachorro, luminária e bíblia. Vou levar os três comigo dessa vez. Tentei colocar a pilha de roupas dobradas dentro da mala. Não coube. Tirei da equação as blusas de frio. Ainda assim, não coube. O par extra de sapatos. As camisas sociais. A calça de linho. A pequena caixa de anéis. O pedaço quebrado da pata do cachorro de madeira. Quando vi, sobraram só aqueles três objetos dentro da mala.
Fechei-a. Tentei levantá-la com um dos braços, não consegui. Com os dois? Também não. Só conseguia arrastá-la comigo. Assim o fiz. Assim o farei. Até quando, não sei. Acho que até partirem-se meus bíceps sob o peso. Até meus tendões estourarem. Até minhas veias entupirem-se com o esforço. Até ficar sem nada e me devolverem tudo aquilo que me tiraram. Minhas pernas de jogador de futebol. Meus braços de ajudante de cozinheiro. Meus olhos chorosos e meu peito de poeta.
Quero que a roupa do meu corpo dure um mês inteiro. Que minhas meias malcheirosas incomodem os passageiros do avião. Que as manchas amarelas em minhas axilas afastem qualquer tipo de falsa carícia que jogarem em minha direção. Que arranquem meus olhos, também – nunca mais me verão chorando. Vou carregar comigo só o que eu preciso. Prefiro viajar leve.




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