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Através dos Meses Sombrios de Junho, Julho e Agosto - Parte II

  • Foto do escritor: Eduardo Henrique
    Eduardo Henrique
  • 10 de mai. de 2023
  • 8 min de leitura

JULHO


Eu havia tido um infarto. Um mês atrás, meu coração perdeu o ritmo e parou de bater por três minutos e quarenta e seis segundos. Por sorte, um de meus colegas conseguiu manter as batidas cardíacas artificialmente. Ao acaso, também, o homem estava atento o suficiente para conseguir ouvir o baque surdo da minha queda. Não bastasse o infarto, bati a nuca no chão e recebi nove pontos e rasparam minha cabeça. Estava feio e de molho por tempo indeterminado. O médico foi categórico: dei sorte, sobrevivi, mas teria algumas sequelas para o resto da vida e teria de instalar um marcapasso assim que possível. Assim que possível pois agora teria de aguardar a autorização da operação pelo convênio médico. Enquanto isso, eu me encontrava afastado – indeterminadamente – do trabalho e convivia com uma arritmia cardíaca frequente, fato qual ocasionou grande preocupação em minha esposa.

E ali estava, desde então. Sentado no sofá, olhando para o teto e tentando desviar os olhos da TV que havia passado o dia inteiro ligada. Não aguentava mais, tudo me entediava. A TV, a comida, a esposa, os filhos... seu corpo não acompanhar a própria mente que o comanda, eis aí uma sensação estranha. Quer dizer, eu poderia correr uma maratona se quisesse – mas seria a primeira e última. Diariamente, tentava ser forte, quase como um ex-alcóolatra, sempre repetindo o mantra do “um dia de cada vez”. Acontece que, mesmo que utopicamente, o beberrão espera que um dia sua mente volte ao normal, anseia por uma rotina e por novas experiências fora do álcool. Eu não. Não existiria nova rotina, nem mesmo uma vida normal. Depois da cirurgia, a vida continuaria a mesma de agora – pacífica e maçante. Nunca mais poderia ceder aos temporãos de energia e correr pela rua – não que eu fizesse com frequência ou alguma vez na vida -, não poderia nem ao menos ficar nervoso, gritar e explodir – mesmo que eu quisesse – e, com certeza, não poderia fazer sexo com minha mulher – não que fizéssemos, também. Não sei mais o que me espera.

A perspectiva do sexo era algo que vinha me incomodando desde que cheguei do hospital. O que já era raro de acontecer somente piorou. Conforme o tempo foi passando neste último mês, percebi o quanto a convivência pesava para nós. Cheguei a sentir saudades do trabalho só para não ter que ver a expressão que variava entre dó e desprezo que ela lançava rotineiramente em minha direção e tão logo disfarçava quando nossos olhares fixavam-se. Aquele apartamento e suas parcelas a perder de vista eram um porto seguro antigamente. Agora, sinto como se fosse minha prisão e meus companheiros de cela planejam, diuturnamente, um jeito de se livrar de mim. A vida tornou-se um tormento. No começo, todos estavam preocupados comigo. Minha esposa me ajudou a organizar a casa, meus filhos trouxeram-me livros e filmes para me distrair, e todos perguntavam sobre o meu bem-estar. Mas, com o tempo, tudo mudou. A minha esposa passou a ficar cada vez mais distante, sempre cansada e sobrecarregada com as tarefas domésticas. Ela raramente me fazia companhia, e quando o fazia, era apenas para dizer que precisava ajudar, como desse, nas tarefas da casa. Meus filhos, por sua vez, pareciam ter esquecido que eu existia. Eles passavam horas trancados em seus quartos, sem sequer me cumprimentarem quando eu passava.

Eu sentia, eu sabia, eu percebia e me doía: me tornei um miserável. O arrimo da família que agora não era arrimo nem de si mesmo. Eu me sentia como se estivesse invisível. As minhas palavras e os meus pedidos eram ignorados, como se não fossem importantes. Eu tentava ser compreensivo, sabendo que todos estavam passando por um momento difícil, não somente eu. Mas, à medida que os dias passavam, eu me sentia cada vez mais melancólico e solitário. Sentia vontade de vomitar e um aperto no peito como se um buraco vazio tivesse ficado no lugar do meu coração quando infartei. Quando eu tentava conversar com a minha esposa, ela dizia que não tinha tempo para ouvir as minhas lamúrias – havia roupas para lavar, louças a secar e filhos a alimentar. E eles, quando eu tentava fazer um pedido, uma pergunta ou sei lá, só queria saber sobre o dia deles, era tratado com irritação e impaciência. Eu comecei a questionar se ainda tinha algum valor para a minha família. Eu me perguntei se eles sequer se importavam com a minha saúde ou com o meu bem-estar. A minha mente começou a divagar, imaginando um futuro sombrio onde eu seria abandonado por todos.

Eu voltei a fumar. Após anos e escondido, sim, mas voltei. Não aguentava mais, depois de um mês dentro daquele lugar comecei a falar para a esposa que precisava caminhar. No começo foram duas vezes no dia, agora eu ia de hora em hora. Ela aceitou, disse que o exercício faria bem para o coração. No fundo ela sabia, eu sequer tentava esconder o cheiro. Talvez ela tratasse a coisa toda como a última refeição do condenado. E assim começou. Descia as escadas e encontrava, olhando para a calçada, meu melhor amigo. Um amigo que durava cinco minutos e virava fumaça entre meus dedos. A fumaça do cigarro era como um véu que encobria minha alma, me permitindo esquecer por um instante toda a situação que me consumia. Ali eu me perdia em um labirinto de sensações, onde o cheiro forte e amargo era o único sinal de que ainda estava vivo. Eu me tornava um espectro, um ser etéreo, que flutuava em meio à escuridão do meu próprio ser. E mesmo sabendo que esse vício era minha perdição, eu não conseguia resistir a ele. Não queria resistir. Ele era meu amante e meu algoz, minha única fonte de conforto em um mundo que se mostrava cada vez mais hostil e indiferente. Mas a cada tragada, eu me sentia mais fraco, vulnerável, como se estivesse entregando minha alma ao demônio em troca de um momento de paz. Era um tango infernal, uma queda livre em direção ao abismo. E eu sabia que, no final, seria consumido pelo fogo que eu mesmo acendia. Mesmo assim, eu continuava a fumar, a sentir a fumaça invadir meus pulmões e me levar para longe desse mundo.

Levantei do sofá e fui até o meu quarto. Fucei a gaveta de cuecas até encontrar o meio maço de Marlboro que eu escondia dentro de uma cueca velha e furada. Passei pela sala como um fantasma, ninguém me notou, e saí do apartamento. O corredor era escuro e estreito, apenas iluminado por luzes amareladas que destacavam as paredes descascando e, enquanto eu andava, era possível ouvir murmúrios das outras vidas que aconteciam dentro das portas de meus vizinhos. Tudo naquele lugar tinha cheiro de mofo, faziam 30 anos – desde que me mudei – que o prédio não era reformado. Como se não fosse suficiente, dei de cara com uma placa escrita “FORA DE SERVIÇO” na porta do elevador. Eu morava no quinto andar. Dei mais alguns passos e encontrei a escada de incêndio. Coloquei a mão no corrimão pegajoso e comecei a descida até o térreo. Passo a passo, cada degrau de porcelanato quebrado da escada craqueava sob meus pés e meu cansaço aumentava. No primeiro lance tive de parar pois comecei a sentir o coração novamente e ofegar.

Como quase tudo nesta vida, não planejei bem quando me mudei para cá. Foi o que deu para compramos aquela época. O plano era arrumar empregos melhores, viajar, sermos felizes.... Nada deu certo e aqui estávamos, ainda, criando duas outras pessoas em um apartamento de dois quartos dentro de um prédio que deveria ter sido fechado pela vigilância sanitária. Que se foda, fiz o que deu para ser feito. Não me arrependo. Era para estarmos morando na praia à esta altura do campeonato, sentindo a brisa do mar e ouvindo as ondas quebrando pelas janelas de nossa casa. Era para estarmos fazendo qualquer outra coisa que não estar ali vivendo esta vida. Mas estávamos colhendo os frutos que desabrocharam desapaixonadamente no verão de nossas vidas.

Demorou bastante, mas cheguei no térreo e uma coisa me ocorreu. Toda vez que descia as escadas do condomínio e saio porta afora para a calçada suja, um homem me esperava. Invariavelmente, quando acendia o meu cigarro ele estava lá. Fumando. Sempre com a mesma camisa azul claro, suas calças jeans e seu tênis esportivo. E lá ficava, encostado no muro, tragando fumaça como se nada mais existisse ou importasse no planeta. Este homem me incomodava. De alguma forma, sentia como se fosse uma cópia minha. Mais velha, mas ainda uma cópia. Não conseguia aproveitar o cigarro com ela ali. Sua presença me desestabilizava, por mais que pareça que, caso eu o toque, minhas mãos iriam atravessar seu corpo como se fosse um feixe de luz na noite seca de São Paulo. Não gostava daquela sensação. De repente, fumar passou a ser um desperdício. A ansiedade voltava, tomava conta de mim, e eu jogava o cigarro fora ainda na metade quando ele estava lá. Passei então a descer em horários diferentes, parei de contar as horas e adicionei cinco, três, quatro minutos a mais entre os intervalos do vício. Não adiantou. Às vezes o homem não estava lá, mas sempre chegava em algum momento. Ele, sua camisa azul, seu jeans e seu cigarro. Encostava as costas na parede e me ignorava completamente – o que eu retribuía por fora, jamais dando o gosto da notação de sua presença. Era um homem sério, com certeza, vestia-se com a seriedade de um servidor público dos anos noventa e tinha um quê altivo que com certeza não combinava com o prédio que morávamos.

Outra coisa atingiu meu cérebro como um raio – nunca havia visto aquele homem ir embora, ou ele já estava lá ou chegava em seguida a mim. Resolvi então esperar que ele acabasse seu cigarro. No tempo em que tragava cinco bastões inteiros ele ainda estava saboreando seu primeiro – indelével, intocável, incorruptível como uma sombra. Minha cabeça doía, meu estômago se revirava com ânsia de vômito e o homem continuava saboreando seu cigarro. Um certo dia, resolvi lhe dirigir a palavra, disse um “oi” que foi retribuído apenas com um olhar vazio e arrogante que tão logo chegou e se foi, como se eu fosse lixo deixado na rua pelos vizinhos preguiçosos que não respeitavam o dia certo da coleta. Eu não sabia quem era ele, mas aquele olhar me atingiu como um soco. Eu me senti ainda mais deprimido e solitário do que já me sentia antes. Será que ele conseguia ver minha fraqueza, minha vulnerabilidade? Será que eu era tão patético assim aos olhos dos outros? MAIS ainda do que eu já imaginava?

Senti uma profunda tristeza ao perceber que a única atenção que eu estava recebendo era de alguém que me olhava com desprezo. No entanto, algo naquele olhar me fez sentir estranhamente confortável, me fez sentir coberto do frio daquela noite. Ele havia me notado, finalmente eu tinha sido visto por alguém. Meu coração começou bater mais forte, perdido em seu ritmo, quase como se estivesse animado por ter uma conexão com outra pessoa, mesmo que essa conexão fosse baseada em nada mais do que uma troca de olhares. Não demorou e comecei a ficar obcecado pela presença daquele homem. Toda noite eu voltava para a fachada do prédio, esperando que ele aparecesse novamente. Diferente das outras vezes, ele não mais apareceu. Acho que violei a sacretude daquele local quanto tentei contato. Mas não desisti. Eu não tinha nada melhor para fazer, nenhuma outra pessoa para conversar. Eu estava sozinho e perdido, e a presença do homem era uma âncora, uma prova de que eu ainda estava vivo e que ainda havia outras pessoas no mundo. Eu ansiava por uma conversa, por um momento de conexão real, mesmo que tudo o que eu conseguisse pudesse um olhar de desdém e um cigarro compartilhado em silêncio.

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Zona Autônoma Temporária, Escrita Surrealista

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