Entre Dois Polos do Planeta Solidão.
- Eduardo Henrique

- 15 de mai. de 2023
- 9 min de leitura
Atualizado: 31 de mai. de 2023
"Toda noite subo e me canso nas escadas infindáveis que me elevam da vida real para a vida ideal. Ideal pois, ali, no meu mundo onde o crepúsculo doura o céu todo dia, somente eu existo e resisto na calmaria. Vivo minhas horas para que, mesmo que por um minuto, possa ser eu mesmo." - O Autor.
Deitei minha cabeça sobre os travesseiros macios e desconfortáveis que dividia com a esposa que, outrora, havia escolhido. O dia havia sido exaustivo e colocar as crianças para dormir fora outra tarefa homérica designada à mim. Nesta hora, nenhuma companhia me agradava. O silêncio do quarto era tão reconfortante quanto o seio de uma mãe indo em direção aos lábios de um bebê faminto. Solidão, era isso que eu mais queria e ansiava naquele quarto escuro. Senti a mulher me procurar, suas mãos tateando pela cama, e me afastei até a beirada, perdendo e ganhando espaço simultaneamente. Preferia cair e me machucar a perder a contemplação daquele momento. Eu precisava aproveitar, ao máximo, e beber o néctar doce das partículas brilhosas, negras e palpáveis de solitude que pingavam do teto e refrescavam minha testa.
Eu realmente apreciava, até amava, aquele pequeno momento do meu dia. De fato, sempre senti que nasci sozinho. "Nem daqui eu sou, nem da Terra eu vim", por vezes me peguei pensando. De certa forma, a afirmação era uma verdade. Às vezes, meu planeta natal me chamava enquanto eu dormia, em sonhos onde eu corria, livre, por suas paisagens oníricas até o inalcançável horizonte dourado. Lá, onde sou Príncipe - o futuro Rei de um planeta absolutamente solitário, perturbado tão somente pela minha insistente presença que chegava cada vez que sonhava. De dia, exercia minha função em uma repartição pública esdrúxula, comum, um funcionário público qualquer, onde passava o dia falando banalidades com gente ordinária. Trabalhava o suficiente somente para manter as contas pagas, comprar minha comida e - caso sobrasse alguma moeda - tentar encontrar uma diversão que fosse - que, por si só, vivia fugindo de mim. Nada mais me preenchia a não ser o sono e o sonho.
Me lembro da primeira e única vez que lá cheguei. Sonhei que estava flutuando em uma piscina gelada, refrescando o corpo e o escondendo do sol esturricante. Meu cérebro havia me preparado a situação perfeita, não havia preocupação que fosse em minha mente até a água me engolir. Um redemoinho que chegou do nada, tão rápido quanto foi embora. Quando acordei, estava nu, no leito de um rio frio e sereno, com a boca aberta, babando sobre a grama alta que ali crescia. Me levantei e procurei entender o que estava acontecendo. Subi o barranco que fazia muro ao rio e andei pelo que pareceu horas, até minhas pernas não aguentarem mais. Não conseguia entender nada, não havia som a não ser o vento. Não havia vista que não fosse mato verde e árvores coloridas.
Ao longe, consegui avistar uma macieira solitária, imponente e fincada no meio de um campo vazio. Sua sombra me chamou e sob sua égide me sentei para recuperar o fôlego. No chão ao meu redor, várias maças maduras esperavam ser consumidas por passarinhos que pareciam nunca chegar, intactas a não pela própria ação do tempo. Sem mordidas, bicadas, vermes ou o que fosse – apenas moles e enegrecidas as frutas iam sendo engolidas pela terra. Ainda sentado, procurei por uma que estivesse mais comestível e a levei à boca. Comendo e observando a paisagem, percebi: não havia passarinhos, de fato. Nem no céu, nem nas árvores, em lugar algum. Não havia canto, só o vento roçando, vagaroso e sibilante, na grama. Peixes, insetos, qualquer coisa: ali só existia eu. Um mundo inteiro que, pela primeira vez, era meu. Só meu. Não havia vida, não havia vontade ali que não fosse a minha.
Após encher a barriga, me levantei e comecei a através da grama que coçava meus calcanhares. Deveria, com certeza, ter alguma pedra solta por ali. Acertei. Encontrei uma pedra cinza, oval, que usei para marcar a madeira que sangrou, triste, sua seiva entre meus dedos. Antes, por muito tempo cavilei enquanto pensava o que poderia ser importante o suficiente para ser sempiternamente talhado e transformado em cicatriz naquela árvore, mas decidi. Me afastei e contemplei minha obra: agora quem ali chegasse, saberia que eu tinha chegado primeiro. Que não era eu o intruso e sim ele próprio. Que tudo ali, até onde a vista alcançasse era única e exclusivamente minha obra pois ali exarei minha assinatura arrogante.
Não demorou muito para que a noite chegasse e com ela a necessidade de abrigo. Passei a tarde toda explorando o lugarejo deserto na perimetral do campo. Absolutamente tudo era um deserto vivo e vegetal. Grama e mais grama, rios e riachos onde matei minha sede e que cortavam a terra e clareiras que anunciavam a presença de densas florestas úmidas. Encontrei repouso em uma destas clareiras, muito bem iluminada pela luz prateada da lua que chegava tímida. Me preparei bem enquanto explorava, havia juntado alguns galhos, pedras e com duas faíscas fiz uma fogueira improvisada. Não pela fome ou para cozinhar algo, não. As frutas me deram o sustento necessário para o dia. O que me causava certa saudade era o calor. A noite trouxe consigo uma garoa gelada que parecia penetrar minha pele cada vez mais, congelando meus ossos. Procurei conforto em um amontado improvisado de folhas que fiz de cama e contemplei as estrelas. Neste meu mundo, parecia que elas estavam em constante movimento, nunca paradas, formando linhas e mais linhas brancas-neon que desapareciam rapidamente naquela lousa escura. Eu estava, em muito pelo, talvez pela primeira vez, plenamente confortável comigo mesmo. Verdadeiramente à vontade com 0 mundo - o meu mundo – e com minha alma.
Tive certo medo de dormir. Pensava que, talvez, dormindo, o inverso aconteceria e acordaria daquele sonho. Lutei contra minhas pálpebras cansadas enquanto pude, mas era uma guerra perdida. Lembro de deitado, ver o que imaginei ser fumaça subindo pelo ar, ao longe. Mas estava cansado demais. Não me lembro por quanto tempo dormi, mas me recordo bem do susto que levei ao acordar. Tudo estava escuro, não sabia que horas eram e nem ao menos onde estava. Fiquei assustado, me sentei e, tateando o chão, encontrei os galhos secos da fogueira que há muito parecia ter se apagado. A lua também já tinha ido embora e me deixado a sós com a escuridão. Quando meus olhos finalmente se acostumaram com o breu, tentei recuperar meu senso de direção. De fato, ainda estava na clareira, sobre as mesmas folhas, agora espalhadas, que havia preparado mais cedo. Entretanto, algo havia mudado. O ar estava denso, como se eu pudesse fazer da garoa fria um cantil para matar minha sede só esticando a língua para fora da boca. Aos poucos, fui percebendo ruídos que vinham de onde as árvores deveriam estar, invisíveis agora atrás da cortina sepulcral da noite. Um medo quase primal tomou conta de minha cabeça, comecei a imaginar todas as coisas que poderiam estar se espreitando e me vigiando naquela mata. Tão logo chegou, o medo foi embora pois, afinal, eu sabia que estava sozinho naquele lugar.
Por precaução, apenas, reacendi a fogueira e nela montei guarda, sempre de olho na muralha de árvores. Continuei ouvindo barulhos, cada qual iam novamente inundando minha cabeça de tensão e dúvida. Resolvi aguardar o sol nascer. Pelo que pareceram horas, me mantive imóvel e pronto para algo ou alguém que nunca chegou. Então, sem outra opção, resolvi agir. Com um dos galhos mais grossos da fogueira fiz uma tocha improvisada que, por si só, não me levaria muito longe, mas serviria de iluminação e arma caso necessário. Isso me deu certa coragem, que logo se transformou em raiva. Se, por um acaso, eu não estivesse sozinho naquele local, precisava descobrir quem invadira meu mundo. Quem ousara macular este templo sagrado que, já tão longe na vida, acabei descobrindo. Assim, caminhei até as árvores e observei melhor. Nada a vista, somente mais ruídos vindos dos galhos acima dos troncos. Vinda do nada, uma manga caiu em meu ombro, me machucando e me fazendo soltar um grito nada orgulhoso. Foi o estopim, resolvi subir na árvore mais próxima. A luz improvisada me ajudou a encontrar alguns apoios e subi com uma das mãos segurando-a. Novamente, nada encontrei a não ser mais mangas. Ela deve ter caído sozinha, estou enlouquecendo de vez, pensei comigo enquanto voltava para a fogueira e prostrava-me em guarda outra vez.
Quando o dia finalmente clareou, entrei na floresta a descobri virgem. Não havia nada, absolutamente nada que indicasse a presença de qualquer animal ou pessoa ali. Mesmo assim, decidi que não poderia dormir sob o relento novamente. Durante a manhã, coletei mais materiais e estabeleci residência provisória na clareira. Juntei galhos caídos, folhas, cipós, absolutamente tudo o que encontrei e pensei ser de alguma serventia. O produto final de meu artesanato improvisado foi uma rústica e malfeita barraca. Um ambiente protegido, ao menos, sustentado por cinco galhos, quatro divididos em pares e formando “V’s” de cabeça pra baixo e ficados no chão, em cada extremidade e um maior em cima, na horizontal, que os ligava. Com os cipós, os uni e forrei o chão e o teto de minha casa com folhas de bananeira. Estava protegido, nem que fosse psicologicamente, do que quer que poderia vir me procurar durante a noite.
Quando minha barriga começou a roncar de fome o sol já repousava na exata metade do céu azul. A mangueira era a fonte de comida mais próxima, e sob seus galhos comi mangas tão doces quanto o primeiro beijo de um casal apaixonado. Após o cochilo da sesta, levantei-me e resolvi explorar o restante daquela floresta. A luz que invadia a floresta através do teto das árvores, encontrava o chão cheio de folhas marrons, dando uma tonalidade cobre ao ambiente. A cada passo, a mata parecia fechar-se mais e se tornava, exponencialmente, mais hostil à minha presença. Meus braços começaram a sangrar com o raspar incessante dos galhos, bem como minha testa e pernas desprotegidas. Mas continuei avançando.
Foi quando eu o vi. Ali, como um espectro, translúcido e nu, estava eu. Mais magro, com braços finos, sem músculos, e costelas tão aparentes quanto a de um cachorro de rua faminto. Seus olhos pareciam ter se perdido, mas ainda me reconhecia neles. Era quase como se eu estivesse vendo um animal em seu estado mais selvagem e puro, apenas parado ali, ameaçadoramente observando meus movimentos. Eu me mexia, ele se mexia, eu parava e ele imediatamente parava também na mesma posição. Não fosse pelos grunhidos que fazia com a boca, seria quase como se eu estivesse de frente para um espelho. Tentei me comunicar com o homem, que parou de rosnar me respondeu ao mesmo tempo e as mesmas coisas. Não era possível, estar era o MEU mundo, ninguém mais deveria estar aqui. Um calor começou a subir do estômago para meu peito e a raiva foi tomando conta de mim e a raiva novamente tomou o lugar da razão. Peguei a primeira fruta que vi caída no chão e joguei no homem. Quando acertei sua cabeça, a minha própria foi atingida por um projétil idêntico. Foi então que parti pra cima dele. Perdi o controle e o persegui floresta adentro.
Era inútil, percebi. Conforme eu corria, ele percorria a mesma distância adiante. Eventualmente, meu clone sumiu quando as árvores começaram a se afastar e abrir espaço para minha passagem, até que dei de cara com outra clareira. Fora da floresta, agora, não acreditava no que estava vendo. Acima de mim, as folhas da mangueira ainda me faziam sombra. Estava novamente na muralha, no perímetro arbóreo, de frente para a mesma clareira que dormi e vigiei a noite inteira. A única diferença é que, ao invés de minha tenda improvisada, erguia-se, imponente, um trono gigantesco, de muitos metros de altura, completamente negro e esculpido em pedra fria no exato centro do descampado de grama. No chão, ao redor, restos e mais restos de frutas se acumulavam aos pés da estrutura. Acima, agora altivo, exibindo um sorriso e lábios de desdém e comando que eu muito conhecia, meu clone se sentava. Enquanto me movia em sua direção, seus olhos me seguiam. Desta vez, ele resolveu não se mexer ou imitar, apenas observar do alto e me jogar frutas que carregava com um braço colado no peito. Elas mais incomodavam do que machucavam, então cheguei perto o suficiente e, pisando nas frutas podres, percebi sulcos na parte frontal da base daquela escultura. Era uma inscrição, cravada na pedra e que, quando li, pareceu me atingir como se um raio tivesse caído sobre minha cabeça e cozinhado meu corpo de dentro para fora. Abandonei o homem ali, que não tentou me seguir ou nada do tipo, e voltei floresta adentro, correndo sem parar e deixando de lado o fôlego e minha segurança pessoal, parando só quando, outra vez, encontrei minha clareira original.
Era minha pois, imutáveis, minha fogueira e casa continuavam ali. As cascas de manga que eu havia comido, os caroços de maça, a grama queimada pelo fogo, tudo... exatamente igual. Comecei a sentir raiva de mim mesmo. Senti vergonha de minha prepotência - aquele lugar, tão sacramente imaculado, agora tinha minhas marcas. Impressões digitais que nem mesmo o tempo apagaria. Comecei a limpar, ao menos tentar apagar toda e qualquer impressão que eu poderia ter deixado. Foi aí que me lembrei do meu último trabalho antes de ir embora dali para sempre.
Andei por mais horas e horas pela paisagem vazia e verde até encontrá-la. Ali estava, com seu tronco marcado. Cheguei perto da macieira que tão bem me recebera neste mundo e vi, marcado em seu tronco, as exatas mesmas palavras que li no trono mármore negro. Senti as águas geladas da vergonha preencherem meu peito e caí prostrado diante da inscrição apocalíptica. Li as palavras uma última vez, enquanto o vento soprava, manso e silencioso, a grama ao meu redor: “Perguntai não qual foi meu nome, pois nunca tive. Reflitais não sobre minha história ou quem fui, pois ainda sou. Mas nesta paisagem solitária e linda, lembrai. Lembrai quem ler estas palavras: Sou Único, Rei e proprietário deste Planeta Solidão”.




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