A Fotografia de um Amor
- Eduardo Henrique

- 24 de out. de 2023
- 6 min de leitura
[Nar.] Na efêmera dança do crepúsculo, quando o sol beijou o horizonte com sua paleta de rubis e âmbares, os raios luminosos se entrelaçaram com as sombras, criando um espetáculo efêmero que teceu a fronteira entre o dia e a noite em suas almas, como se o próprio universo, num suspiro silencioso, se entregasse à magia da transição, onde o céu se tingia de cores inexoráveis, e o mundo se enfeitava da melancolia dourada daquela fotografia de um amor.
[1] - ... E como, me diz, COMO você poderia compreender um mundo que você não faz parte? Você diz me entender, diz me compreender, diz que está aqui para mim e não está. Não do jeito que EU preciso! Você me conhece somente até o ponto em que te permito me conhecer...
[2] - O que? E como isso é culpa minha? Você não está fazendo sentido nenhum. Sabe, eu tento. Eu juro que tento. Mas cada vez mais estou te vendo se tornar exatamente tudo aquilo que você mesmo diz odiar... E, também, não pense que eu não sei o que está fazendo!
[1] - Fazendo? O que que eu tô fazendo, agora?
[2] - A mesma coisa de sempre! Procurando desculpas, procurando um jeito de me machucar. Não entendo, admito, o porquê de você fazer isso. O que você espera que aconteça, que eu vá embora de vez? POIS eu tenho notícias para te dar. Eu NÃO vou embora. Pelo menos não até você ter coragem o suficiente para assumir suas atitudes e me fazer ir!
[Nar.] O coração do tempo batia em compasso com o suspiro eterno do horizonte, e as estrelas emergiam tímidas em seus olhos, como versos secretos nas páginas do universo, a eternizar a crescente colérica beleza daquele instante.
[2] - Viu? É o que você sempre faz! Toda vez que escuta algo que não quer - mas MUITAS, muitas vezes PRECISA escutar, você se fecha. A verdade que seu narcisismo não te deixa enxergar é que eu SIM, vejo você. Eu SINTO você. Sou capaz até de adivinhar o que vai dizer. Vai começar a falar que eu falo demais e que -
[1] - Às vezes é necessário dizer menos para dizer mais. Conversar o tempo todo não é se comunicar. Não de verdade, pelo menos.
[2] - EXATAMENTE! Você não tá nem me escutando! Olha... Eu não tô aqui pra te machucar. Eu quero te ajudar, é só isso que eu sempre quis e tentei fazer -
[1] - Me ajudar? E quem você PENSA que é pra me ajudar? Como você poderia sequer começar a me ajudar? Eu tenho RAIVA de você. Eu tenho raiva da sua vida tão sempre, sempre tão perfeita. Raiva de você, raiva dos teus amigos... dos teus pais. EU tenho raiva.
[Nar.] Tamanha era a imponência do espetáculo decadente das estrelas cruzando o firmamento que cada um dos deuses que decidiram por usar de seu tempo infinito para usufruir daquela cena passou a procurar por abrigo antes que elas magistralmente se despedaçassem na superfície lunar. Deuses, como sempre, temendo o amor e a mortalidade trazida pela beleza da tristeza.
[2] - Olha... Eu me expressei mal. Admito. Mas eu NÃO SOU a resposta pras perguntas que você ainda tem.
[1] - Eu nunca disse que você era! Eu nunca quis isso, nunca pedi isso, nunca pedi ajuda -
[2] - Eu sei que não, eu sei que não e eu sei que não! Mas você precisa! Não é possível que não enxergue isso!
[1] - É claro que enxergo! Mas quem vai me ajudar? O QUE vai me ajudar?
[2] - Eu! Eu tô aqui exatamente pra isso, pra te ajudar! Isso é amor!
[1] - Amor?...
[Nar.] O silêncio precedeu a escuridão. Esfumaçadas e lúgubres, as outrora brancas nuvens deram lugar à um cálido e estéril céu noturno. Inexplicavelmente imóvel, vazio e perigoso como tudo aquilo que se esconde abaixo da superfície d’agua de um lago escuro. De onde me encontrava, ansiosas lágrimas fugiam de meus olhos em direção ao vazio e tudo aquilo que ele outrora representou.
[2] - Sim, amor! Essa coisa horrível dentro de mim. Essa coisa que me faz deixar de me amar pra amar você. Para priorizar você. Me preocupar se você comeu sem mim nem ao menos ter tomado café da manhã ainda. Amor.
[2] - Deus, como é horrível amar! Não é nem natural! Como é possível deixar de cuidar de si mesmo em prol do outro? Faz quanto tempo que nem mesmo as unhas eu faço? Que não passo henna no meu cabelo? E pra que? Mesmo que eu fizesse, você não perceberia!
[1] - Você sabe que eu nunca liguei pra isso...
[2] - Exatamente, esse é o ponto! Não é por você, não deveria ser por você. É por mim! E é justamente por isso que, em tese, você deveria se demonstrar ao menos algum tipo de preocupação. Você vê quem você ama se deixando, se abandonando, e o que você faz? Eu? Em vão tento conversar. Você? Como eu disse, não sei nem se ao menos tinha percebido até agora o estado da pessoa com quem você dorme QUASE TODO DIA!
[1] - Calma, como essa conversa deixou de ser sobre nós e passou a ser sobre você?
[2] - O que? Nunca foi sobre nós! Essa conversa era pra ser sobre você. Exclusivamente sobre você e tudo que está causando à nossa relação. Mas tem razão. Começamos errados, pela primeira vez, essa conversa TEM que ser sobre MIM.
[Nar.] Pequenos cristais translúcidos, um por vez, rasgavam meus olhos e iam, serenos, escorregando em pontos diferentes de minhas bochechas onde, quietos, caiam no chão e criavam padrões circulares que reverberavam na terra enquanto o próprio espelho espacial os refletia. Calmas e rimadas, as ondas desenhavam mandalas coloridas naquele canvas deserto, pintando e brincando com a gravidade como crianças felizes jogando água para cima.
[2] - É claro. É a verdade que eu nunca tinha percebido. É a verdade que eu nunca QUIS ter visto. Você não liga! Não sabe o que eu represento, o que eu faço e fiz pra manter esse ambiente minimamente suportável. Me diz, de uma vez! Me diga: o que eu sou?
[1] - Dizer o que? Pra que? É de autoafirmação que você precisa? Então aí vai, você é a minha pessoa. Está feliz?
[2] - Deus... Eu sou tão mais. Como não tinha percebido? Eu não sou um conceito! O erro de quem se apaixona é justamente esse. Me viu um dia e me transformou em conceito, naquilo tudo que precisava até não precisar mais achando que esse dia nunca chegará. Mas chegou! Cada dia que passa está mais claro. Cada dia mais a realidade bate na nossa cara! Deus... quanta estupidez, quanta burrice... Eu não sou SUA pessoa. Eu sou UMA pessoa.
[1] - Eu sei disso. Você sabe o que eu quis dizer. Não vamos entrar nessa discussão semântica idiota que não vai nos -
[Nar.] Sentei-me no chão e com o coração observei as cenas que se desenvolviam acima de mim. A indiferença com que as coisas se desenvolviam naquele diálogo metafísico era demais. A grande noite chegava enquanto o tempo pesava em cima de mim. Temi, temi a separação, temi não ter aquela experiência nunca mais. Senti-me pequeno. Inútil. Incapaz. Por mais que quisesse entender, não entendia. Por mais que quisesse explicar, não conseguiria. Restou-me o destino tão conhecido por todos amantes: comtemplar tudo aquilo que não se pode compreender.
[2] - Eu só quero ir embora...
[1] - Pois vá! Não tem ninguém aqui te segurando.
[2] - Sabe, foi difícil, mas finalmente entendi que estou, não sei faz quanto tempo, falando individualmente. Só comigo. Minha cabeça e meu coração são salas vazias e o que eu achava ser um diálogo era só o eco da minha própria voz. Que piada!
[1] - Você está se enrolando, já deixou de fazer sentido faz -
[2] - Não! Você teve todas as oportunidades do mundo para se expressar. Quantas chances te dei, quantas vezes te IMPLOREI pra que falasse qualquer coisa. Inclusive agora! Mas, acabou. Te peço, pela primeira vez, silêncio.
[1] - Que, de bom grado, então, respeitarei.
[2] - De fato, acabou. Acabou! E eu não consigo ficar nem triste! Só sinto estupidez dentro de mim, burrice dentro de mim. Tudo sempre foi tão claro! Por isso, te agradeço e me amaldiçoo. Fui feliz enquanto você viveu dentro de mim. Fui feliz enquanto não havia percebido que, na verdade, você se tornou somente um cadáver dentro do meu coração. Apodrecendo. Pintando tudo de preto, comendo tudo como um fungo.
[2] - Quando minha mãe morreu, você esteve do meu lado. O que fizemos? Um velório e a enterramos. Nos despedimos. Mas o que fazemos quando quem morreu está vivo e de pé na nossa frente? Quando o que morreu está dentro de nós, engessado, enraizado, impossível de ser enterrado? Deus, como é irônico...
[2] - Obrigado. Obrigado por morrer.
[Nar.] Tanto tempo passou, tanto daquela eternidade em mim restou. Independente de meus medos e de minha relutância, o dia seguinte chegou e com ele um sol azul, completamente novo e muito mais intenso deu lugar ao antigo – já tão velho e enferrujado. Chegou gritando, queimando a grama que procurava abrigo abaixo de meus pés – mas chegou. Sob ele andei, deixando pedaços de minha pele pelo caminho – uma lembrança para a estrela que outrora me deu abrigo e sustento, para que ela saiba que eu esperei, de fato, sua morte para, enfim, seguir em frente.
- Comentário: A não definição de caracteristicas físicas, sexuais e de gênero para as personagens foi uma escolha consciente.




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