Pôr-do-Sol
- Eduardo Henrique

- 26 de abr. de 2022
- 4 min de leitura
Uma vez me disseram que Bach escrevia suas melodias derrubando lágrimas em cada nota enquanto compunha. Isso era, de certa forma, um mecanismo de defesa do compositor. Suas lágrimas assim transmitiram para nós, em forma de ondas sonoras, toda a tristeza e solidão da Europa na qual o autor viveu. Para mim, esta é a beleza do artista. “Por quê tanta tristeza?”, consigo ouvi-lo soluçar sobre as notas recém colocadas na mesa. “Onde a esperança se escondeu?”, consigo ouvi-lo chorar sobre o papel enlameado.
De toda forma, o que não consigo imaginar é que ele não tenha amado suas melodias antes, durante e depois da composição da mesma. O papel dos poetas é transmitir o espírito dos sentimentos que lhe levaram a escrever. A música nada mais é que uma das milhares de forma de poesia inventadas pelo homem. Tenho certeza que como eu, mesmo tendo lembranças dolorosas demais de certas palavras que escrevi, Bach entendeu a importância do que produziu e amou como filho tudo que acabou partindo de sua própria mente. E como já dizia outro artista: tudo que amamos são pedaços vivos do nosso próprio ser.
Se por acaso, e por qualquer motivo, você que lê tenha um coração duro, de pedra, e não esteja conseguindo entender o que estou falando, já peço aqui minhas humildes desculpas. Meu coração é vermelho, pulsa, e sangra todo dia. Meu peito bate triste as batidas da esperança, por mais distante que elas possam soar aos meus e aos teus ouvidos.
Mas eu não julgo, muito pelo contrário, compreendo em absoluto o que é estar vazio de esperança. Sei bem o que é acordar sem quê nem porquê e viver todo dia o inferno de não saber o por qual motivo se está neste mundo. Ficar preso entre tentar viver cada dia e fugir de todos os outros. Não há coisa pior que eu consiga imaginar. Mas é exatamente por isso que escrevo esse texto.
Estas singelas palavras que aqui escrevo tem como objetivo, caso cheguem ao destinatário, agirem como uma forma de agradecimento pelas coisas que esta pessoa me ensinou. Não fosse ela, meu coração não bateria como bate hoje. Não fosse ela, eu não tiraria cinco minutos do meu dia, todo dia, para olhar o pôr-do-sol. Não fosse ela, eu não saberia o que é amar de verdade.
Antes de conhecê-la, meu dia começava e terminava numa espiral completa de solidão e tristeza. Mas não qualquer tristeza, mas sim a pior de todas: a tristeza da razão sem motivo. Estar triste por ter nascido e vivido assim durante mais de vinte anos. Estar triste porque a melancolia era o alicerce da sua própria personalidade. Estar triste porque seu único amigo era branco, cilíndrico e em dez minutos virava fumaça entre seus dedos.
Era uma vida solitária, onde as expectativas se resumiam apenas em mais solidão. Isso acabou por me fazer criar uma casca impenetrável, onde só eu estava certo e todo mundo ao redor ou era ingênuo demais ou não ficava tempo o suficiente perto de mim para que eu tivesse tempo de descobrir. Eu passei a afastar as pessoas. Mas por que eu fazia isso? Para que agir desta forma?
Por medo, eis a resposta. Medo de abrir espaço na minha vida para que, assim que quisessem, as pessoas fossem embora. Me abandonassem novamente àquela existência solitária que eu fingia gostar tanto. Por fora, eu agia como a pessoa mais inteligente e confiante do mundo. Por dentro, eu era um menino convencido, triste e extremamente assustado. Assustado e esperando que um dia aquilo tudo ia passar e eu acordaria, como num sonho, finalmente feliz.
Mas você chegou. Chegou e me mostrou que eu tinha passado minha vida inteira esperando e que de nada aquilo adiantou. Esperando por um sorvete que estava derretendo na minha mão enquanto eu contemplava minha própria tristeza e alçava ela a um patamar que jamais deveria ter ocupado. Chegou e me mostrou como enxergava o mundo, diametralmente diferente de mim. Enquanto que para mim a vida era algo a ser suportado, para você extrair de cada momento o melhor possível deles era a única coisa possível.
Você roubou minha solidão. Roubou minha solidão e, por culpa minha, ou da vida em si, não importa, me fez mais só ainda. Foi-se embora como todas as outras pessoas. Fiz você partir como se fosses tu mesma que me abandonaste. Mas desta vez, graças a ti, eu havia aprendido a me virar. A lidar com a solidão que briga por espaço dentro de mim. Brigar com o vazio que me preenche. E por isso serei eternamente grato.
Não creio que tivemos um final poético, na verdade nem sei se tivemos final que seja. Mas nada termina poeticamente. As coisas terminam para que possamos transformá-las em poesias. E você foi, é, e sempre será a poesia mais bonita que a vida me apresentou. Contigo dancei a dança dos anjos e flutuei num céu que só seu coração conhecia. Contigo aprendi que existe no mundo muito mais que tristeza. Muito mais que solidão e ódio pessoal.
Apesar que hoje, vejo que na minha (ou nossa) felicidade cor-de-rosa, existiam sentimentos que inevitavelmente restariam neste desfecho. E, também inevitavelmente, aqui estamos: você vivendo como sempre viveu, evoluindo cada dia, apreciando a beleza e a delicadeza das mais pequenas coisas, e eu tentando viver como sempre vivi, mas com teus importantíssimos ensinamentos.
Para sempre serei grato por tudo que passei contigo. Serei grato pelos dias bons e mais grato ainda pelos dias ruins. Serei grato pela lembrança que tenho de você dormindo no meu sofá enquanto assistimos algo na TV. Serei grato pela sua companhia na janela enquanto fumava meu cigarro. Serei grato pela lembrança que tenho do teu sorriso. Serei grato pelas estrelas de nascença tatuadas na tua testa. E, principalmente, serei grato por todo dia sentir vontade de assistir o pôr-do-sol e lembrar de você.
Como Bach, cada letra escrita aqui tem sua carga sentimental. Comigo sempre, na minha cabeça, estarás.




Comentários