Através dos Meses Sombrios de Junho, Julho e Agosto - Parte I
- Eduardo Henrique

- 21 de mar. de 2023
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de mai. de 2023
JUNHO Um homem morreu. Estava ali, tão normal como poderia ser, tão comum quanto qualquer outra pessoa daquela estação. Era um fantasma, indistinguível, como eu. Os seguranças chegaram, pediram para que nós nos afastássemos e tirou os curiosos da beira da linha. O ambiente da estação não havia mudado em nada, continuava agitado e barulhento como sempre, abarrotado de pessoas apressadas para subirem nos trens que passavam de dois em dois minutos. Cinco minutos atrás o som de uns dos trens se aproximando se misturou aos gritos e bipes dos walkie-talkies dos funcionários do metrô que vieram correndo em minha direção. Passaram por mim e por aquele borbulhão frenético de pessoas que me rodeava. Um homem havia pulado nos trilhos e não fazia mais parte deste mundo.
Enquanto os funcionários tentavam remover o homem dos trilhos e chamavam a equipe de resgate, tentei observar as pessoas ao meu redor. Algumas faces tinham a expressão pesada de preocupação e pesar, sim, mas, naquele local, predominavam os rostos curiosos. Morbidamente curiosos e indiferentes à situação como se aquela morte não passasse de um empecilho diário. Um atraso no itinerário para o trabalho ou à volta para casa, no máximo. Aqueles rostos me enjoavam. Algumas pessoas falavam em seus telefones, fofocando e debatendo sobre o ocorrido. Outras tentavam se posicionar por cima dos funcionários da estação e conseguir um ângulo melhor para a tirar uma foto ou gravar um vídeo do processo de retirada do cadáver – um trabalho antes exclusivo de jornalistas sensacionalistas, agora praticado por pessoas comuns. Espectadores. O morto não tinha mais personalidade – era agora um corpo. Sua história, sua família, seus filhos e quem quer que seja que pudesse se importar com ele não só foi ignorado quando ele morreu e sim deixou de existir, como um todo, aos olhos da sociedade. Hodiernamente, a tragédia se tornou cotidiano e a desconexão emocional era geral.
Não demorou mais de dez minutos para tirarem o corpo, ensacarem e levarem aquele homem aos corredores cavernosos e restritos do metrô. Logo, o próximo trem chegou e embarquei rumo ao trabalho. Abri o celular para esquecer a cena horrível que acabara de presenciar, mas não adiantou. Uma foto do corpo – de forma muito mais detalhada do que eu havia observar presencialmente – saltou aos meus olhos no feed de notícias. Ele estava já na maca. Não parecia mais com um ser humano, parecia mais uma massa abarrotada de carne, roupas e sangue. A única coisa que ainda era possível distinguir era seu rosto, impassível como uma estátua – um retrato desbotado de desespero e sofrimento. Sua boca estava meio aberta, como se o queixo não tivesse mais apoio na mandíbula para fechá-la. O sangue escorria e tatuava sua testa, suas rugas e descia pelos olhos até o nariz torto. Tentei, mas não consegui interpretar nada de suas motivações. Nem teria como, se em vida não o ajudaram o que adiantaria eu agora tentar depois de morto? Aquela casca era agora só silêncio e vazio. Foi quando eu percebi: estava morbidamente curioso. Meu celular pingava sangue no chão.
Fui o caminho todo tentando me distrair e evitando ceder à ânsia de vômito que tomava conta do meu abdome toda vez que lembrava daquela foto horrível. Cheguei ao prédio. Velho, decrépito e fedendo a mofo. Eis aqui meu escritório, o lugar onde eu passava mais tempo do que com minha própria família. Ao entrar no saguão, senti as narinas encherem de poeira enquanto as pessoas passavam apressadas por mim enquanto procurava em minha carteira o cartão que me daria acesso ao elevador. Passei pela catraca barulhenta e pelo segurança que não se dignava a nem ao menos olhar para ninguém que por ele passava. Chamei e entrei no elevador que chegou vagaroso como um monstro barulhento e adormecido. Subimos enquanto ele roncava a cada andar que subia. As portas se abriram e eu entrei sentindo um aperto no coração. O cheiro de uma colônia forte rançosa impregnou meu nariz. Eu sabia a quem pertencia aquele cheiro. Meu chefe. Conforme fui passando pelas pessoas que trabalhavam sem sorrisos, esperanças ou sequer notavam minha presença atrasada, visualizei o rapaz corpulento sentado em minha cadeira.
Ele me chamou para uma “conversa”. Fui até a sua sala com o coração na boca. Eu sabia que não havia feito nada errado, mas ainda assim meu braço esquerdo começou a ficar dormente e comecei a suar e sentir na garganta as batidas irregulares do meu peito. Agora sim, conforme andávamos em silêncio algumas cabeças se voltaram para nós. Curiosidade mórbida, novamente. O percurso de poucos metros pareceu durar meia hora e, a cada passo, e tentava não ceder a vontade de vomitar e continuar andando. Enfim, chegamos à fatídica sala. Minimalista, branca, com um sofá, estante de livros – sem livros e decorada com quinquilharias generalizadas –, uma mesa opulenta de madeira de lei e uma poltrona de couro. Um belo contraste com as mesas de MDF malfeito e com as cadeiras de plástico oferecidas aos seus funcionários.
Eu tentei explicar a ele o motivo do meu atraso, mas ele não quis ouvir. Não era novidade, eu era um recurso, um objeto sem valor, para ser explorado e descartado. Eu já sabia disso tudo. Mas, por alguma razão, dessa vez doeu. Não só incomodou, como geralmente acontecia, mas os ataques doeram pessoalmente. Me perguntei se ele pelo menos teria pensado no que poderia ter acontecido para justificar o atraso. Não importava. Não para ele, para ele eu era só um empregado que falhou em cumprir suas tarefas, um número em uma planilha que não se encaixava em seus plano ambiciosos de férias anuais na praia. Senti a tristeza transformar-se em raiva, Eu era um ser humano, uma pessoa, uma alma cujo valor estava agora sendo pondo em cheque e descartado por alguém que, nem de longe, tinha poder ou moral suficiente para fazê-lo. Comecei a me agarrar à argumentos de autoridade enquanto ele falava e sua voz entrava por um ouvido e saia por outro meu. Eu tinha minha casa. Eu tinha minha esposa e tinha meus filhos. Eu tinha quase cinquenta anos. O que aquele moleque tinha? Metade da minha experiência e o dobro do poder. Ele não sabia de nada. Entretanto, de certa forma, eu o invejava. Queria viver naquele mundo particular que ele tentava tão desesperadamente me mostrar, o mundo onde as pessoas não têm valor ou importância, um mundo de almas presas em planilhas computadorizadas que, com um passar de mouse, um clique do teclado, desapareceriam à meu bel prazer. Tivesse eu feito curso de Excel quando mais novo, ele seria o primeiro a desaparecer.
Saí da sala do mesmo jeito que entrei: em silêncio. Vaguei pelo corredor imenso pensando nas noites que perdi com meus filhos pois estava trabalhando até tarde, “vestindo” a camisa da empresa para que os projetos não ficassem atrasados. Senti meu coração cada vez mais acelerado. Minhas mãos tremiam e respirar estava cada vez mais difícil. Entrei em uma batalha contra meu próprio corpo para conseguir chegar até minha mesa. Não consegui. Me lembrei do sábado que perdemos pois tivemos que vir até ao prédio para fazer o treinamento de primeiros socorros e percebi que estava infartando. Minha respiração estava curta e uma dor aguda subia pelo meu braço esquerdo como um bicho geográfico. Quando virei a esquina do corredor e visualizei minha mesa, caí no chão. Não conseguia mais me mover, estava preso no meu próprio corpo e o ambiente – já muito parado – parecia ainda mais em câmera lenta. Tentei gritar por ajuda, mas minha voz havia me abandonado. Eu sabia, estava morrendo. Eu não sei por quanto tempo fiquei ali deitado, mas finalmente vi um par de sapatos se aproximar. Alguém chegou para me ajudar. Como um clarão, um flash ao contrário, tudo fica escuro e volta ao normal. Depois fica escuro novamente. Eu estava flutuando, não podia mais sentir meu corpo, não podia mais sentir a dor, não podia mais sentir nada.




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