Do Sofrimento e do Luto
- Eduardo Henrique

- 8 de abr. de 2022
- 2 min de leitura
Quanto ao sofrimento, você descobrirá que ele vem em ondas. Quando tua embarcação afunda pela primeira vez, você se vê afogando, com um punhado de destroços flutuando ao redor. Eles têm um papel específico naquela situação: servem para te lembrar da beleza e magnificência do imponente navio que você até então era. E tudo o que lhe resta agora é - como as tábuas inchadas de madeira - flutuar também. Mesmo despedaçado, se agarra em algum fragmento flutuante e aguenta mais um pouco. Só mais um pouco. Sempre mais um pouco.
Talvez o estilhaço seja algo realmente sólido, real. Talvez seja uma memória feliz, uma fotografia ou até mesmo uma pessoa. Por um tempo, tudo o que você pode fazer é se agarrar a ele e flutuar conforme a corrente te arrasta. No começo, ondas de trinta metros de altura quebram sobre ti, sem piedade que seja, impiedosas e rápidas, vêm de dez em dez segundos, sem tempo nem para que você recupere o fôlego. Tudo o que você pode fazer é aguentar e flutuar. Conforme o tempo passa, talvez semanas, talvez meses depois, você descobre que as ondas ainda têm trinta metros de altura, mas demoram mais a chegar. Então, quando elas chegam, ainda desabam minando sua força de vontade. Porém, nesse ínterim entre elas, você pode respirar. Ao menos um pouco.
A questão é, você nunca sabe o que vai desencadear a dor, que trará a próxima onda. Pode ser uma música, uma foto, uma caminhada na rua, o cheiro de uma xícara de café. Pode ser qualquer coisa... e a onda volta. Mas entre as águas escuras desse mar revolto, nasce a vida.
Eventualmente, as ondas começam a vir com vinte metros de altura. Ou dez. E, mesmo com a certeza da sua chegada, a distância entre vocês aumenta cada vez mais. Você pode agora vê-las chegando. Você pode enfim se preparar. Respirar fundo, guardar todo o seu oxigênio para quando elas caírem outra vez.
Um aniversário, uma festa ou um feriado. Você pode vê-las chegando, na maioria das vezes, e se preparar. E quando elas caem você sabe que, de alguma forma, emergirá outra vez na superfície. Encharcado, se afogando, tossindo, ainda pendurado em algum pedacinho dos destroços, mas você vai emergir. Estar no fundo do oceano é uma experiência pior do que a cegueira. É a essência do horror e do desespero. Mas ainda é melhor do que a certeza de que sua visão é perfeita e que não há mundo ao seu redor para ser visto.
As ondas nunca vão parar de chegar e, de alguma forma, você realmente não quer que elas o façam. Mas você aprende que vai sobreviver. E outras ondas virão. E você também sobreviverá a elas. Se você tiver sorte, sairá dessa situação com muitas cicatrizes e um pulmão cheio de água. O luto é inevitável quando percebe-se que além do seu próprio, no fundo do oceano jazem muitos outros naufrágios.




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