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Nenhum sentimento é o fim

  • Foto do escritor: Eduardo Henrique
    Eduardo Henrique
  • 12 de mai. de 2023
  • 6 min de leitura
"De tudo que podemos fazer enquanto humanos a coisa mais difícil, sem dúvidas, é ser livre. Livre no sentido pleno da palavra, livre em todas as esferas e níveis da liberdade, livre na dor, na saudade, felicidade e livre no amor. E, quando falo de liberdade, não falo de licenciosidade. O amor não é o excesso desmedido de atitudes irresponsáveis praticado por nós, humanos. Amor é o fac-símile terreno da máxima liberdade, a centelha divina dentro de cada ser humano. Amando somos livres e deuses. Quando amo, sou imortal. Mas a imortalidade traz responsabilidade. Fazeis de sua vida o amor, e serás eternamente livre ao mesmo tempo que preso pelas correntes que colocará em seus próprios pulsos. Entretanto, seja responsável por tudo aquilo que fizer ser parte de sua vida, pois o arrependimento é pior do que qualquer prisão." - O Autor.

Nenhum sentimento é o fim. Enquanto vago por este descampado seco e marrom, encontro-me em pensamentos, tentando buscar remédio e sentido para a quebra de meu coração. A beleza das vacas e das montanhas que, a muito, abandonaram este lugar desolado me apunhala, vêm como lembrança e memória, zombando de minha introspecção e dos meus olhos que refletem a paleta azul-claro do céu desanuviado. Caminhando minha mente volta às lembranças de um amor que se foi. Deita-se, como uma amante, nos lençóis da ausência que me cobrem e me prendem. Eu lembro, eu sei e eu sinto. O modo como ela ria, como segurava minha mão... seus olhos penetrantes. Ela estava ali, linda, como sempre esteve desde que a perdi.

Me recomponho e olho ao meu redor: ainda há alguma beleza neste lugar desolado. O vento que roça e levanta a poeira da terra vermelha, os pássaros escondidos que procuram a si um nos outros e cantam, diuturnamente em solidão... e o sol. Ele, que lança seus raios dourados e quentes sobre o solo, torrando as plantas e o topo de minha cabeça descoberta. Existe beleza a ser encontrada.

Meu coração esteve dividido por muito tempo. Quando precisei, não tive a coragem e hombridade de ser sincero com quem merecia. Não fui com ela e não fui comigo mesmo. Mas vivi. Chutei uma pedra e lembrei do poema: “Deixe tudo acontecer com você: beleza e terror. Apenas siga em frente. Nenhum sentimento é definitivo”. Talvez não tivesse ainda, àquele tempo, a coragem para ser honesto. Quiçá não tinha nem mesmo a idade. Entretanto, corajosa e irresponsavelmente, vivi.

Lembro da primeira vez que a vi. As mãos suadas, escondidas nos bolsos de minha jaqueta de couro enquanto a esperava sair da estação de metrô. Lembrei de cada mulher que apareceu e pensei ser e ela, só para ser surpreendido quando ela finalmente surgiu. A ânsia de vômito e os três cigarros em vinte minutos. O sentimento agridoce de adoração e medo, os olhos se conectando... lembro de tudo, absolutamente tudo, pois, tão logo aceitei tal pessoa dentro de mim, construí um ninho de madeira para os passarinhos que chamamos de coração chamarem de morada. Ela era magnética, e senti como se o mundo inteiro tivesse parado quando a conheci. Por um momento que durou somente uma eternidade, foi como se só ela existisse no meio daquela Avenida Paulista abarrotada de gente.

Mas, como disse, não consegui ser honesto. Me joguei, inteiramente, mesmo estando acorrentado pelas canelas ao passado. Meu coração ainda doía com a dor de um amor distante, profundamente perdido dentro de mim. Um amor inquieto, que, ao procurar sua cama em meu coração, destruía tudo que via e o todo que tocava. Era um animal selvagem que, por muito tempo, lutei para domar. Nesta época, lembro, as feridas ainda estavam frescas, as lembranças vívidas e as emoções ainda cruas. E, sem ligar para isso, ansiava desesperadamente seguir em frente, deixar a dor para trás e abraçar o amor e a felicidade que vi nesta mulher.

Desta maneira tão esdrúxula e covarde, comecei a minha vida com a mulher que agora também não me encontro. No início, eu sentia que havia finalmente encontrado a paz dos poetas. Ela foi, e sempre será, perfeita. Não no sentido literal da palavra, mas tão perfeita quanto uma gota d'água gelada na língua de um beduíno perdido no deserto. Eu ansiava por ela, tinha medo dela e sentia tudo, absolutamente tudo, por ela. Ela me fez livre, pois a única liberdade que nos é permitido é, justamente, a liberdade de amar. Nós amamos, fazemos nossa cama e a enfeitamos com este amor onde nos deitamos, todo dia.

Não demorou muito para que eu mesmo percebesse a barreira invisível que eu mesmo havia erguido dentro de mim. Aos poucos, com o tempo agindo como chuva em uma barra de ferro exposta ao clima, a dualidade que eu carregava dentro do coração acabou por ter sua voz ouvida. Ela foi ouvida mediante brigas sem motivo, caras-viradas sem razão, birras e todo tipo de infantilidade possível. Era como se existisse um abismo atrás de mim. Um buraco negro e móvel, que me perseguia para onde eu ia, sempre ali – a dois segundos de descanso - e não me permitia preencher a lacuna entre meu passado e meu presente. Como as crianças, quando nós não entendemos o que sentimos, passamos agir de forma errática, ferindo outrem e a si. Às vezes, esses machucados não tem cura. Quase sempre, a culpa também não nos deixa seguir em paz. Eis a vida: é sempre da dor para frente.

Agora, neste local infeliz e desprovido de vida, consigo entender. Sentimentos ficam mais claros em retrocesso. Como poderia eu, tolo, fazer para a felicidade morada em meu peito, quando todos os inquilinos antigos ainda ocupavam cada canto e cada cômodo? É como se eu tivesse tentado construir uma casa nova sobre vigas de madeira rachadas e apodrecidas. Nada se sustentaria ali.

Admito minha culpa, que tanto nos custou, e agora visto os robes da vítima que não sou – a não ser de mim mesmo. Sou como um pássaro de asas aparadas, incapaz de voar livremente, condenado a sempre saltar, anilhado ao peso de minhas próprias emoções. Meu coração é uma gaiola autoconstruída onde vivo trancado, ansiando pela liberdade de amar e ser amado sem reservas – mas sem nunca me permitir. Sou um homem dividido, gravitado entre a saudade do que foi e a esperança do que poderia ser. Meu coração é um campo de batalha, e eu sou o soldado que luta, incansavelmente, pelo meu senhor General Amor, mesmo quando ele me trai e eu vou e lhe retribuo na mesma moeda.

Eu cansei de caminhar. Meus pés doem, minha cabeça tonteia e meu estômago ronca. Cheguei ao ponto que eu queria. À minha frente ergue-se um casarão outrora branco, altivo como um palacete perdido e desmoronando, ao léu, no meio da terra batida. Um monumento onde suas paredes quebradas, cada tijolo descascado, representam uma memória diferente. Não existem experiências individuais, esta casa não foi construída sozinha e não foi abandonada sozinha. Eu só fui embora primeiro. Aceito e recebo minha parcela de culpa e a bebo com seu gosto amargo de remorso.

Algumas coisas, percebo agora, não se conserta – já nascem tortas e o que se pode fazer é quebrá-las e remendar, vez e outra quando o formato nos incomodar. Eu não fui homem, no sentido mais figurativo possível da palavra, para admitir meus defeitos. Não fui homem para deixar para trás aquilo que me machucou – pelo contrário, busquei a dor e a fiz combustível de uma chama que nos queimou ambos. Tivesse eu, antes, ciência dessas tantas coisas aqui ditas, teria feito tudo igual, pois não me arrependo de um segundo sequer que passei contigo. Com a dor, conviverei pro resto da vida e aceito este malfadado lugar construído com tanto esmero.

Está anoitecendo e o vento começa a gelar e umedecer minhas roupas. O pôr-do-sol chegou e já saí de fininho, me deixando para trás em nostalgia e arrependimento. Da última vez que ousei refletir sobre ele, não entendia ainda o que este momento representava. O crepúsculo é o ponto final, é o dia que se foi, o momento em que chegamos a nossas casas cansados e, em tese, refletimos sobre tudo o que aconteceu durante o dia. Eu refleti, mas não pus um ponto final e aí mora meu maior erro - só me preocupei em sobreviver à noite. Não estava pronto quando o amanhecer chegou me esquentando e não soube o que fazer, pois, dentro de mim, meu coração ainda batia nos tiques do relógio do dia anterior.

Meu ponto final é: pudesse ter ficado, eu teria. Mas não pude, eu mesmo não me permiti. A culpa não me permitiu. Não fui capaz de me perdoar e descobri ser impossível viver com culpa. Tomei a saída dos covardes: decidi ficar sozinho – um último ato de maldade antes de tentar, verdadeiramente, nunca mais machucar ninguém. Atravesso o portal vazio e me sento aqui, nas ruínas que farei outra vez de casa. Lembrarei de ti sempre que caminhar por estes corredores, sempre que o amanhecer chegar procurando os vidros das janelas quebradas e dar de cara com o espaço vazio. Lembrarei de cada sorriso, cada risada e cada vez que fomos, verdadeiramente, felizes nem que por um instante. O que sobrou, jogo na fogueira vacilante das desculpas, acesa, agora, aos meus pés. Farei isto, pois, magoar-te-ei nunca mais.

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1 comentário


Matheus Martins cruz
Matheus Martins cruz
29 de set. de 2023

Esta obra é verdadeiramente cativante. Sua habilidade em tecer palavras e emoções é notável, e sua narrativa flui suavemente, como um rio sereno que nos leva a mergulhar profundamente em seus personagens e suas experiências.Sua obra é um testemunho da sua paixão pela escrita e da sua capacidade de nos fazer refletir sobre a complexidade da vida e das relações humanas. "Nenhum Sentimento é o Fim" é uma jornada literária emocionante que merece ser lida e apreciada por todos que valorizam a beleza da linguagem e a profundidade das emoções. Eduardo, parabéns por essa obra extraordinária!


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